A senhora precisa de sossego, já trabalhou muito na vida, precisa descansar.
— vou continuar! – disse Emília.
Riu sozinha e dormiu feliz.
Pensaram que lá Emília seria vigiada e não poderia mais surpreendê-los.
que apenas os muito próximos sabiam.
Blog de historias reais da vida. O que ainda não foi dito! Está convidado a deixar a sua opinião e nós responderemos.
Cada um é, para aquilo que nasce, diz o ditado. Mas,
cada um precisa lutar para ser o que é.
Assim, quando o mundo chegar à sua rotação total, você
poderá descer sem susto, na certeza de uma escolha acertada e digna.
Porque o mundo... ah, o mundo... esse é redondo e gira
para todos, assim como girou para os donos de nossa história.
Numa cidade pequena do interior, alguém toca a
campainha de uma casa de apoio à crianças desamparadas.
Vera, uma senhora bondosa e criadora da instituição
que se mantinha com doações de pessoas e instituições, vai até o portão.
À primeira vista não tinha ninguém, mas olhando para
baixo viu uma figurinha pequena e franzina sentada na porta com um papel na
mão.
Vera se apressou em pegar a criança mal agasalhada e a
abraçar protegendo-a do frio que fazia naquela noite.
Entrou correndo e pegou o papel que a criança, uma
menina, segurava.
Leu em voz alta: − Meu nome é Eliane e tenho dois anos
de idade. O meu aniversário é dia 1º de dezembro.
Vera habituada com situações assim, logo cuidou de
Eliane, deixando-a confortável, já que parecia assustada.
No dia seguinte, fez as comunicações de praxe às
autoridades da cidade e assumiu a responsabilidade de acolhê-la, fazendo
todos os registros de sua chegada como sempre fazia.
Não levou muito tempo e a pequena recém chegada se
adaptou à nova vida e à nova moradia.
Todas os meses, ficava na fila de apresentação às
famílias interessadas na adoção.
Algumas das crianças encontravam novas famílias e
saiam; outras perdiam as suas e chegavam.
Esse era o cotidiano da Casa de Apoio Santa Maria,
conhecida como a Casa da Dona Vera.
Os mais velhos ajudavam com os menores e vida que
segue.
O tempo passava e Eliane não conseguia uma família para adotá-la.
Devido a idade era mais difícil despertar interesse.
Era notadamente inteligente e quieta. Parecia sempre
estar pensando, olhando, observando e guardando.
Eliane já estava com sete anos de idade e continuava
na casa.
Nesse ano, dona Vera recebeu a visita de uma senhora
da capital com sua filha.
A mãe conversou muito com dona Vera, e contou que na
verdade não tinha interesse em adoção, mas gostaria de cuidar de uma menina que
fosse da idade da sua filha, para lhe fazer companhia.
Sendo a menina de sete anos, Vera logo pensou em
Eliane e a chamou para conhecer Clara, a filha da senhora que acabara de
conversar.
A boa conexão entre Eliane e Clara foi
imediata. Em poucos minutos já estava Eliane mostrando a casa e os brinquedos
comunitários, orgulhosa e feliz como nunca estivera.
Feitos os acordos, Eliane foi levada para a nova casa.
A recepção que Clara fez à Eliane, não foi menor do
que a recebida por ela quando esteve na Casa de Apoio.
Eliane dormia com uma das empregadas da casa mas,
Clara sempre dava um jeito de convencer os pais a deixarem Eliane dormir com
ela em seu quarto.
Clara era uma menina delicada, gentil e doente. Motivo
pelo qual não frequentava a escola normalmente, como as outras crianças.
Tinha professores particulares que vinham até sua
casa, incluindo uma professora de piano e inglês.
Talvez devido à doença que a deixava fragilizada,
odiava estudar, puxando assim Eliane para assistir às aulas com ela e cumprir
as tarefas em seu lugar.
Faziam isso no instinto de brincadeira, era um segredo
das duas e se divertiam assim.
Eliane e Clara se tornaram mais do que amigas,
era um laço de irmandade e cumplicidade. Uma completava a outra e eram
confidentes.
Passados seis anos, a doença de Clara se agravou e aos
treze anos de idade deixou Eliane sozinha, triste e desolada.
Não menos desolados ficaram os pais de Clara e sua
avó, uma vez que era filha única.
Agora restava saber o que fazer com Eliane.
Decidiram que a agora adolescente ficaria, e que lhe
ensinassem os serviços da casa, assim trabalharia como ajudante nos
afazeres domésticos da imensa casa, agora vazia sem a presença de Clara.
A decisão foi tomada contrariando a avó de Clara, que
não aceitava Eliane saudável e sua Clara levada por uma enfermidade.
Dona Emília, como se chamava a avó de Clara,
transferiu seu desgosto e raiva para Eliane.
Nada que a garota fizesse a agradava. Implicava e lhe
tirou tudo que a Clara lhe dera.
As roupas que lhe dava eram roupas usadas dos adultos,
fazendo com que Eliane usasse a criatividade para adaptá-las ao seu tamanho.
Não queria que frequentasse a escola pública onde
estudava, dizia que não confiava na “sonsice” dela.
— Vai deixar essa moleca sair? Qualquer hora aparece
aqui com a barriga maior que a petulância. Essa garota não presta! – Falava.
—Deixe ela, mãe, logo fará dezoito anos e vai procurar
a vida dela – dizia a filha.
E Eliane chegou aos seus dezoito anos. Foi avisada que
deveria procurar um lugar, porque não podiam mais assumir a responsabilidade
com ela.
Deram-lhe um tempo, que Eliane, orgulhosa como
aprendera ser, não aceitou.
O tempo passado ao lado de Clara não foi apenas
divertimento, foi preparatório. Aproveitou a oportunidade que Clara, brincando
lhe dera.
Era fluente em inglês e tinha um nivel cultural de dar
inveja.
Conseguiu um trabalho e dividia o apartamento com
outras três moças para economizar dinheiro.
Se dedicou a estudar e pelas boas notas conseguiu uma
bolsa de estudos para a universidade.
Estudava durante o dia e à noite dava aulas de piano,
pois teve que deixar o outro emprego.
Nos fins de semana estudava desesperadamente
para ter boas notas e manter a bolsa de estudos.
Não era fácil, mas tinha um objetivo, o mesmo
confidenciado à sua amiga e irmã Clara.
Dizia que seria médica para tratar da amiga e as duas se abraçavam cheias de esperanças.
Do passado na Casa de Apoio, Eliane só tinha um
envelope pardo com sua história que só abriu no dia de sua formatura no curso
de medicina.
Da casa da família de Clara, tinha a lição que a única
coisa que ninguém pode lhe tirar é o que você aprende.
De Clara, tinha as melhores lembranças e a base
fundamental para chegar onde estava chegando.
A ela, só lhe faltava o futuro que estava chegando com
as melhores promessas.
Tempos depois, já médica cumprindo sua residência na
especialidade que escolhera, foi chamada para atender um paciente.
À sua frente, dona Emília num estágio avançado de uma
doença que que lhe tirava o direito de morrer dignamente.
Diante de uma escolha dessas que a vida nos impõe,
Eliane tomou o caso para si, e em memória à Clara, cuidou pessoalmente de sua
avó, com o mesmo carinho que cuidaria de Clara.
Rodeada da família, e com a dignidade que todos
merecem, dona Emília morreu segurando a mão de Eliane, mas não foi antes lhe
dizer:
“Doutora... doutora Eliane, você é uma menina de
valor!”
“Assim, quando o mundo chegar à sua rotação total,
Eliane poderá descer sem susto, na certeza de ter feito uma escolha acertada e
digna.”
Mundo Redondo!
Sua paixão era a família, em especial sua mãezinha,
como a chamava.
Se preocupava em dar o melhor aos seus três irmãos, um
tanto quanto indolentes, acostumados a receber as benesses providas pelo irmão
mais velho.
José, cuidadoso como era, via sua casa precisando de
reparos e os irmãos se lamentando por não terem estudado devido a falta de
recursos.
Ele não queria isso para seus sobrinhos, já que filhos
não tinha.
Resolveu dar um passo profissional mais largo,
ganhando muito melhor, embora o novo trabalho exigisse o sacrifício de ficar mais tempo em mar do que em
terra.
Aceitou a oferta. Viajaria pelo mundo e nos três meses
em que estivesse em terra ficaria com a família.
Passados alguns anos, conheceu e se envolveu com Mara,
uma enfermeira divorciada e com um filho que morava com o pai.
O romance dos dois evoluiu e resolveram morar juntos
casando algum tempo depois.
Dividia agora o tempo em terra com a mulher em outro
país e sua familia em Portugal.
Algumas vezes viajavam juntos, para visitarem a
familia dele.
Em uma dessas viagens a Portugal, José recebeu a
visita de um rapaz, dizendo-se seu filho, nascido nos tempos de namoro livre,
um fato desconhecido por ele até então.
A conexão entre os dois foi difícil, o rapaz tinha
modos que José não aprovava.
Não aceitava conselhos, apenas a ajuda financeira que
passou a receber do pai.
Agora com um filho e sobrinhos crescendo, José começou
a investir em sua terra, para dar melhor condição de vida no futuro à família e
a ele mesmo.
Um de seus irmãos era seu procurador e administrador.
Mas não desenvolvia bem a função, não conseguindo
manter os recursos enviados por José.
Começaram os conflitos em família.
José tinha medo da velhice mas, apesar disso, era gastador e muito generoso com os outros e com a
família da mulher, motivo para guardar dinheiro longe dele.
Nomeou seu sobrinho como seu novo procurador.
Procurava orientar o sobrinho por quem nutria um amor
de pai, mesmo sem conviver muito com ele.
Confiava totalmente nele, e por essa preferência, as
brigas com o filho ficaram mais constantes.
− Precisas tomar jeito, ó pá! Como vou confiar em ti
com tua vida torta? Pensas que não sei que és um drogado e gastas tudo que te
mando com as prostitutas?
− Onde tu inventaste essa história? − Respondia o
filho.
− Não interessa. Importa que sei.
E assim seguiam sem um contato cordial ou mais
próximo.
Com a perda de sua mãe, José diminuiu suas visitas a Portugal,
passando seu tempo em terra no país de sua mulher.
Criou amizades, fez boa vizinhança e ajudava a muitos.
Nunca negou-se estender a mão a quem lhe pedia ajuda.
Era querido e respeitado.
Agora, estabilizado em terra firme, podia fazer o que
tanto gostava: ter seus cães para cuidar. Chegou a cuidar de dezoito cães em
casa, eram seus filhos, dizia.
Era feliz; mas a convivência diária com a esposa não
ía muito bem.
Já com mais idade, se irritava facilmente e isso
se chocou com a extrema sensibilidade de Mara, sua mulher.
As brigas eram constantes e ele não economizava as
grosserias.
− Vamos conversar, José. Desse jeito não estou feliz –
dizia Mara.
− Ah, não? E por que não vais embora?
− Porque quero manter meu casamento e acho que se você
quiser nós podemos viver bem.
− Estou é muito cansado de tanto choramingares. Já me
chega ter passado metade da vida com os peixes.
A cada briga era o mesmo.
Até que um dia ela aceitou a sugestão de ir embora e
foi, para surpresa dele.
Vendo o carro de mudança em frente à casa, se
assustou.
− Espera, onde pensas que vais?
− Estou indo embora como você vem sugerindo. Resolvi
seguir seu conselho. Adeus! – Despediu-se ela sem muitas “choramingas.”
Inconformado, José tentou impedir. Ela não
aceitou.
Mara seguiu sua vida deixando-o para trás.
Ele ainda a procurou muitas vezes tentando uma
reconciliação.
Dizia que o trabalho duro por tantos anos dentro de um
navio, o tinha deixado assim, nervoso e agitado.
Não convenceu Mara. Concordou então em serem amigos e
aceitar uma separação amigável.
Acreditava de certa forma, que com o tempo a
convenceria a mudar de ideia.
Isso não aconteceu e ele conformou-se.
Ficou sozinho com seus cães, mas não por muito tempo.
Reencontrou uma amiga a qual tinha ajudado no
passado.
Estreitaram a amizade, ficando ela ao seu lado, o
ajudando e sendo ajudada. Uma troca justa.
Os anos correram rápidos, como corre para todos
nós.
A idade chegando e junto com ela as doenças naturais da velhice.
José precisava de mais conforto e um atendimento médico
melhor.
Acreditava não ser isso um problema, tinha seus
investimentos em Portugal, pediria ao sobrinho que lhe providenciasse as
remessas, uma vez que o dinheiro que tinha com ele havia acabado.
− Como estás, ó rapaz?
− Muito bem, amado tio!
− Escuta aqui ó rapaz, preciso que me mandes meu
dinheiro para cá.
Estou mal das pernas e preciso disso.
− Mandarei meu tio. Só preciso de uns dias para
retirar das aplicações.
O tempo foi passando e o caro sobrinho já não atendia
mais suas ligações.
José, a cada dia ficava mais debilitado e incapaz de reconhecer alguém.
Vivendo apenas de sua pequena aposentadoria, começou a
depender dos favores que plantou. Dos amigos que fez.
Embora não tenha ideia do que se passa ao seu redor,
recebe o essencial para que sua vida não termine sem dignidade.
De tudo que viveu, não teve tempo de aprender muito
com ela. Mas nos deixará uma grande lição:
Muitas vezes o erro está em nossas escolhas, na crença
exagerada nas pessoas erradas, de que temos o controle de tudo e que somos eternos.
Aprendemos também, que uma semente plantada em terra
fértil, um dia nos dará os frutos que matam nossa fome.
“Essa história é uma homenagem em vida a um amigo que
muito plantou em nosso terreno.
Porque entendemos que depois que partirmos da terra, a
melhor homenagem é a oração.”
E você, acredita que a semente que plantamos pode
brotar um dia?
“ Conheci um amor virtual, amor tão lindo quanto o real, sempre mando recados e depoimentos, mesmo distante tocou meus sentimentos.” ...