quarta-feira, 3 de maio de 2023

Paixao.com

 

 


Conheci um amor virtual, amor tão lindo quanto o real, sempre mando recados e depoimentos, mesmo distante tocou meus sentimentos.”

Em tepo de pandemia, conversar com os amigos, conhecer novas pessoas, só  tinha um jeito: Pracinha virtual!

Muitas amizades foram feitas e desfeitas assim. Encontros e amores também.

Quantas pessoas se apaixonaram através das redes sociais? Quantas choraram e quantas se decepcionaram?

Muitos amores de brincadeiras, de mentiras, cada um sendo o que queria ser, tentanto sair da solidão obrigatória.

Entre verdades e mentiras, muitas paixões, muitos amores nasceram e se firmaram ali.

A Vitrine Virtual é uma faca de dois gumes. Corta para o bem ou corta para o mal.

Dentre tantas histórias – algumas guardadas em segredo - nasceu sem quê nem pra quê, o romance entre Helene e Daniel.

Daniel, vindo de dois casamentos, filhos adultos e cheio de projetos pós- pandemia.

Passeava nas redes com seus bem elaborados tweets, mais precisamente, pelos elogios que recebia.

Inteligente, intelectual e muito vaidoso, caía em cortesias com as mulheres, em sua maioria carentes de afeto, de amizades...

Não tinha intenção séria com nenhuma, pelo que dizia, mas seu jeito conquistador, atraía muitas amizades femininas.

Helene, havia terminado um namoro no início da pandemia. Em seus trinta e poucos anos, nunca havia se apaixonado de verdade, como manda o figurino.

O fim do namoro de cinco anos, não teve efeito colateral. Se sentia livre e quase feliz, apenas com alguns traumas trazidos de um relacionamento abusivo bem no começo de sua vida adulta.

Não se impressionava com as perguntas de Daniel sobre sua vida e os emojis distribídos por ele todos os dias, ao que respondia.

Mas, não ficou indiferente ao seu olhar. Dedicava algum tempo tentando decifrar o que aquele olhar queria dizer.

Não levou muito tempo e lá estavam os dois, falando deles um para o outro.

O bom humor dos dois era marca registrada, e a expressão casamos virou regra a cada coincidência, e isso fazia os dois se falarem cada vez mais.

Esforço dos dois lados para estarem juntos quase todos os dias, até que  a frequência passou a ser diária.

Nenhum dos dois querendo assumir o que aparentemente sentiam, até que um dia, um gosto comum aos dois, virou tema da conversa.

Helene, já acreditando que o que sentia era especial, e totalmente encantada com aquele sentimento diferente, não mediu esforços para surpreender Daniel com um presente referente ao gosto comum dos dois que haviam descoberto.

Começaram a viver momentos de muita emoção, embora houvesse uma espécie de medo um do outro, o que foi desaparecendo rápido.

Mesmo nas redes em mensagens abertas, os dois já não escondiam mais o carinho que sentiam um pelo outro.

Não deu para segurar mais. Assumiram que estavam apaixonados e começaram a viver aquele sentimento e fazerem planos.

Daniel pensava em mudar-se do país e Helene trabalhava  viajando muitas vezes. Não pensava em casar-se e ter filhos. Daniel também não, como já tinha filhos, não buscava mais esse sonho.

Helene se sentia feliz em ter encontrado alguém que não a criticasse ou cobrasse a obrigação de casar e ter filhos.

Planejavam viajar ao país em que Daniel moraria futuramente. Ele fazia a planilha e Helene compartilhava com idéias e opiniões. Sonhavam juntos.

−Olha só, querida, encontrei esses três hoteis −  Dizia mostrando as fotos e o panorama da cidade.

−Lindo, amor. Esse aqui é nossa cara – dizia Helene escolhendo um.

E assim eram todas as coisas que faziam juntos. Em pouco tempo tinham uma parceria única, um acrescentando ao outro.

Helene dava suas opiniões em tudo que Daniel lhe apresentava e ele, por muitas vezes era seu terapeuta. Orientava, partilhava experiências e foi parte fundamental no amadurecimento e recuperação de Helene.

Para o futuro, planejavam que Helene teria seu lugar na casa de Daniel, e ele teria um lugar na casa de Helene. Duas casas onde compartilhariam a paixão quando estivessem juntos em qualquer um dos lugares.

Se davam bem. Um adorava conversar com o outro e dividiam seu dia a dia em relatórios diários no início de seus encontros. Assim, um participava da vida do outro, como fazem os namorados.

A família de Helene já conhecia Daniel através de troca de emails e de tudo que Helene relatava. Esperavam apenas o dia de recebê-lo em casa.

Como nem tudo é perfeito, existia um porém entre os dois: o ciúme de Helene e o jeito conquistador de Daniel.

Apesar de ter melhorado bastante, as antigas admiradoras provocavam Helene e isso a aborrecia.

Ele dizia que nenhuma delas tinha importância, e ficava um tempo comportado, tempo em que Helene vivia no céu.

Mas esse prazo tinha validade, e se expirava rapidamente. Daniel, sentindo falta de alimentar sua vaidade, voltava sempre ao comportamento que Helene tanto odiava.

Era um estresse para os dois. Ele se aborrecia e cobrava confiança. Ela não conseguia confiar, uma vez que ele havia tentado muitas vezes falar em privado com as amigas que ela lhe apresentava.

Era constante em pouco tempo, essas amigas contarem sobre as investidas de Daniel, que dizia eram sem nenhuma intenção.

Helena, obviamente, não conseguia crer, imaginando que se eram inocentes, por que escondido?

−Que inferno, amor, essa RS ainda vai nos separar – Reclamava ela.

−Está bem, querida, vamos ver se conseguimos vencer isso. Tudo que me interessa é você – dizia Daniel.

−Não parece. Se você sabe que uma coisa me aborrece, fazer aquilo pra quê? Estamos há dois anos juntos e você ainda não aprendeu nada de mim.

Brigavam mas não conseguiam se largar. Helene era de fato apaixonada. Era a primeira vez que sentia algo tão forte por alguém. Mesmo brigando se tratavam com carinho, apesar da raiva explodindo.

Se reconciliavam rápido, mas logo depois, sem aviso prévio, Daniel começava tudo de novo, acrescentando a isso, a questão de continuar morando na mesma casa com a ex mulher e dormindo na mesma cama que ela.

Dizia que seria até ele mudar-se. Que dormiam na mesma cama mas conversavam apenas o necessário, que a própria ex não queria muita proximidade.

Helene tentava acreditar, mas muitos pontos dessa costura começavam a serem observados por ela.

Como fazia um tratamento “TEPT-Transtorno de estresse pós-traumáutico,” resultado do relacionamento abusivo no passado, relatou todos seus medos e desconfianças ao Terapeuta e começaram a trabalhar isso.

Ficar com ele, Daniel, era muito bom, mas essa situação a deixava insegura, instável em suas emoções. Queria acreditar, pedia o mínimo, e ele sempre prometia mas não conseguia cumprir.

O Terapeuta deu seu parecer à Helene. Falou que acreditava que o casamento de Daniel podia estar desgastado pelo tempo ou outras divergências, mas que ainda existia. E que ele não estava sendo feliz e nem disposto a deixar de fazer o que a incomodava.

A aconselhou pensar melhor, sair da relação que ao seu ver era um passa tempo para Daniel e talvez fosse até um estímulo para o seu casamento.

Helene teimava em se enganar para continuar na relação, sem no entanto acreditar no que tanto queria.

Tinham conversas longas sobre o assunto e logo tudo ficava tranquilo e os dois seguiam em seus planos de ficarem juntos.

Conversavam sobre tudo, tinham um nível equivalente de idéias e assuntos. Vez ou outra, a situação voltava ao ponto nevrálgico que era o não cumprimento das promessas dele e os ciúmes dela.

Muitos outros pontos começaram a surgir o que tornava Helene cada vez mais insegura.

Os dois tinham uma parceria incrível e isso também os segurava numa conexão enorme.

Helene sentia que havia qualquer coisa que não estava sendo clara. Talvez com ele ou com ela. Só sabia que tinha alguma coisa fora do lugar.

Quando dormia sempre tinha sonhos perturbados e sabia que alguma coisa não se encaixava. Estava se sentindo chata, e não se sentia uma boa companhia inclusive para ela mesma.

Para evitar esse sentimento, fechava os olhos e ouvidos para algumas coisas. Mas sabia que tudo estava por um fio.

Uma noite foi dormir muito tarde se avaliando. Se colocando no lugar de Daniel, estava muito apaixonada e não queria vê-lo pressionado e nem achava justo pagar um preço alto por um relacionamento sem uma medida de troca justa.

No dia seguinte chegou mais cedo do trabalho e foi em sua rede social. Em seguida foi nas redes sociais dele, inclusive uma que raramente ía. Pela curiosidade, viu o que não queria.

Um comentário da suposta ex de Daniel o chamando de amor, em seguida, viu que ele, mais uma vez, não cumpria o combinado, o que a fez se sentir péssima.

Sabia que não pedia muito, não tinha ciúmes dos amigos ou da família, pedia apenas que alguns poucos casos isolados fossem mantidos à distância.

Lembrou das palavras do Terapeuta, de que talvez fosse uma forma de ele dizer que já não estava interessado em viver um casal com ela, que pedia exclusividade e não confiava nem se contentava com o que estava lhe sendo oferecido.

Chorou tudo.

Precisava ser honesta com ela e com ele também. Deixá-lo livre para viver com quem quisesse, fazer o que quisesse. Mas sabia que seria difícil, mas, difícil também estava daquela maneira.

Tomou a decisão mais dolorida até então. Conversaria com ele. Não mais para cobrar nada, só daria liberdade aos dois.

Se acalmou, se controlou e foi ao encontro.

Na pracinha virtual onde se encontravam todos os dias, sempre no mesmo horário, a conversa começou com o relatório dele, que como sempre, disse no final:

−Então, querida, é sua vez. Não me esconda nada, nadinha… (brincadeira que sempre fazia)

−Nadinha? –perguntou ela.

−-Nadinha!

−Está bem – disse Helene, iniciando a conversa propriamente dita.

−Então começo por ontem e termino hoje, está bem?

Falou de sua noite que não foi boa, relembrou os primeiros encontros, o sentimento forte, a admiração, a parceria, os acordos anteriores, seus valores... Enfim, de tudo que haviam vivido e do amor que ela ainda sentia.

O tranquilizou de que estava bem e contou o que viu e a conclusão que chegara.

−O que você viu lhe incomodou? –Perguntou Daniel continuando –Pelo que entendi você está terminado comigo e está convicta e certa de que isto é o melhor pra você, correto?

−Convicta e certa de que é o melhor pra mim, para você. Para nós dois  −Disse ela.

Conversaram mais um pouco fingindo normalidade e ele pediu para se despedir.

Se despediram sem os beijos, sem as manhas dos apaixonados deixando a possibilidade de uma amizade entregue ao futuro.

No coração de Helene não ficou mágoa, apenas uma dor e uma saudade que ela prometeu a si mesma superar.

O Jardim que acolheu tantos momento bons e outros não tão bons, está vazio e sem a perspectiva de ser ocupado novamente.

Se esse amor foi real ninguém sabe. Mas se sabe que existiu.

O futuro? Este ficou no passado ainda presente apenas nas boas lembranças.

"Sonhos que morreram na praia..."

11 comentários:

viilaanii.blogspot.com disse...

Helene fez ninho no peito e Daniel não se deu conta e quando viram já estavam em um grande emaranhado, mas ela criou coragem e desatou por dentro! Ali, na ferida!

Conclusão: alguns afetos afetam alguns reais outros rasos demais…

Uma história que nos faz refletir sobre o verdadeiro amor.

Parabéns amigos e obrigado por compartilhar conosco!

Anônimo disse...

Parabéns pelo conto, que representa a história real de muitos casais. Ione

viilaanii.blogspot.com disse...

Helene fez ninho no peito e Daniel não se deu conta e quando viram já estavam em um grande emaranhado, mas ela criou coragem e desatou por dentro! Ali, na ferida!

Conclusão: alguns afetos afetam alguns reais outros rasos demais…

Uma história que nos faz refletir sobre o verdadeiro amor.

Parabéns amigos!

Ana Vilarejo

dinah disse...

O amor dela era verdadeiro. O dele não. Pq qdo se ama se dedica a um só ou a uma só e ele não foi capaz disso. Ela fez muito bem de pensar nela e acabar com tudo. Mas q pena. Poderia ser uma linda história de amor com final feliz

Lea disse...

Creio que Helene se entregou mais. Ele, certamente, tinha sua vida já preenchida com outras lembranças. Amor é bem mais que boas lembranças.

Concordo muito com os comentários de vilaanii.blogspot.com quando diz:
"alguns afetos afetam alguns reais outros rasos demais…"

e Dinah finalizando: "Mas q pena. Poderia ser uma linda história de amor com final feliz."





mantoliva disse...

São muitos os que se dão ao amor de verdade e não recebem o mesmo de volta, eu desacredito em amor verdadeiro, de pura reciprocidade, por que o amor verdadeiro faz sofrer...

Eduardo Chiarini disse...

Uau... que história...
Perdi o fôlego lendo-a e, de certa maneira, entendi perfeitamente a situação.
Eu posso dizer, sem medo de errar, que houve um amor muito grande entre os dois, com entrega de ambas as partes.
Circunstâncias distintas, possivelmente, levaram o casal ao término do relacionamento, e
sinto, de coração, que a dor de Helene será preenchida por tudo de lindo que ela merece.
Penso, também, que o carinho que sempre existiu ainda existe.
Desejo tudo de lindo a Daniel e Helene.

Anônimo disse...

Uma história com um misto de encontros e desencontros, de alegrias e tristezas, assim como a vida é dinâmica.

Sheilamaria53 disse...

Nesta história, vejo uma mulher que se apaixonou por um homem que buscava ocupar seu tempo ocioso causado pela pandemia, conversando com várias mulheres. Terminou " bem", se compararmos aos casos que terminam com mulheres arrasadas e com suas contas bancárias esvaziadas por "conquistadores profissionais ".Felizmente alguns encontros de Internet deram certo. Encontros e desencontros fazem parte da vida.

Cecilia disse...

Acho que o amor foi só dela mesmo. Ainda bem que encontrou força para sair. Isso poderia levar anos e anos e ela olhar para trás e ver o tempo que passou perdido. Morro de medo desses tipo de homem não aceito DM nem pela caridade.Boa sorte para Helene, que encontre um amor de verdade.

Alex disse...

I believe it is possible to connect deeply with someone who is just not right for you. On the plus side, Helene had the chance to work on her heart and get over the bruises from her previous relationship. In the end, her heart is not as empty as it might feel. Perhaps this time was only to prepare her heart for a love that is yet to come...like a field being prepared for harvest. There is hope yet. As for the final question...I feel the relationship was real...temporary doesn't mean false. It just means it's not permanent. There is hope yet. Best wishes to Helene!

Paixao.com

    “ Conheci um amor virtual, amor tão lindo quanto o real, sempre mando recados e depoimentos, mesmo distante tocou meus sentimentos.” ...