sexta-feira, 2 de setembro de 2022

Borboletas de Ouro...


 

As flores brotam em lugares e em tempos mais improváveis.

Assim é o amor.

Em meio à pedras, dificuldades e até mesmo uma guerra, ele surge e nada o pode deter.

Há os que acreditam no milagre do amor e há os que pagam para ver.

Nossa história, é uma história de flores nascidas entre pedras, em meio à dificuldades e ao som de bombas.

Uma história real, que o tempo tatuou na memória de quem a viveu para hoje nos contar, e não precisa acreditar ou pagar para ver, ela simplesmente aconteceu.

Muitos, por que não dizer todos, já conhecem o seu fundamento.

Judeus espalhados por toda parte do mundo mesmo antes do holocausto, tentando fugir de uma perseguição por serem apenas o que eram.

Dentro desse caos, muitos tentavam viver uma vida normal, sem no entanto deixarem a incerteza do amanhã.

Ewa e Janel, um casal desse grupo, tentando viver sua vida normal.

Formados dentistas, casaram depois de suas formaturas numa cidade da Polônia.

O filho, George, chegou logo, e sem pedir licença e sem se preocupar com o mundo, ou esperar um momento mais oportuno.

Apesar do inesperado, a felicidade de ter um filho renovou a alegria e a vontade de viver de Ewa e Janel que já viviam a ameaça da guerra.

Não muito longe dali, um outro jovem casal Annink e Oton experimentavam a mesma surpresa: recebiam seu bebê, o que fez o amor dos dois se fortalecer ainda mais.

A chamaram de Eiréne, que significa paz, em grego.

Os dias passavam e as dificuldades aumentavam, mas isso não impediu os jovens de ingressar numa universidade.

Aos 17 anos, George seguiu os passos dos pais, estudando odontologia, queria ser dentista, assim como eles eram, mesmo sem a certeza do futuro.

Encontrou em sua classe uma menina também judia que lhe roubou os sentidos.

Não pode estudar naquele dia. Sua mente ficou na jovem que tinha um sorriso largo e cativante.

Passou a planejar um meio de se aproximar dela, já que era tímido ao extremo, apesar de ter um senso de humor refinado , porém discreto.

Pensou em fazer uma brincadeira, mas se conteve. E se ela não gostasse e o achasse inconveniente?

Fez um bilhete para ela.

"Prezada colega desconhecida, me perdoe, mas me parece que ainda não sei seu nome. Penso que você também ainda não sabe o meu. Nesse caso, me apresento: sou um bobo, um tolo chamado George que ainda não sabe como atenderá seus pacientes por ser tão bobo e sem coragem".

George passou perto de Eiréne e colocou o bilhete dobrado em mil pedaços perto dela e saiu quase correndo.

Eiréne que era extrovertida e muito divertida foi até ele e pediu que lhe abrisse a nota que deixou cair.

Brincando ainda disse: - creio que o senhor esqueceu de deixar a chave do cofre, e riu da própria provocação.

Quebrou-se o gêlo. George abriu o bilhete e entregou para ela que depois de olhar , abriu bem os olhos e disse: - me perdoe , mas não leio hebreu. Pode traduzir para mim por favor?

George ficou meio sem graça e pediu desculpas.

- Mil perdões! Achei que fosse judia.

- E sou - respondeu Eiréne. Mas não leio hebreu.

- George, embaraçado, tentou despistar, dizendo que não era nada , apenas uma brincadeira.

Eiréne não facilitou.

- Ahã, pois é amigo, você é brincalhão e eu curiosa.

George não teve saída. Leu o bilhete em polonês em voz alta.

Eiréne, respondeu em hebreu, para surpresa de George, disse que não achava ele bobo coisa nenhuma, apenas espirituoso e isso era bom.

Essa travessura de Eiréne deixou George um pouco mais à vontade e começava ali um namoro que rendeu essa história.

Mesmo jovens demais, viviam um amor além do que se pode esperar de jovens, Viviam um para o outro e se faziam companhia nas fugas de um esconderijo para o outro.

As famílias de George e Eiréne se uniram e tentavam uma dar suporte à outra.

Mas numa noite de 1942, o esconderijo havia sido descoberto e as famílias fugiram sem destino.

Cada um dos filhos querendo proteger seus pais, se perderam.

Viveram a tristeza de um amor perdido. Não havia esperança e assim, a vida seguiu apesar da dor da separação.

Ewa e Janel conseguiram fugir para o sul do Brasil onde se alojaram.

A comunidade brasileira apoiou os refugiados e para não prejudicá-los e nem serem presos mudaram seus nomes, como faziam os judeus que escapavam, vivendo na clandestinidade até o fim da II guerra.

As coisas começavam a se reorganizar e tanto Ewa, Janel e George , se adaptaram à cultura brasileira e com muito trabalho retomaram a vida.

George voltou a estudar e concluiu a universidade que havia deixado devido às circunstâncias.

Pensava noite e dia em Eiréne e de um meio de como encontrá-la.

Todas as ideias que formava lhe causavam tristeza.

E se não tivesse sobrevivido? E se assim como ele, estivesse em um outro país? E se tivesse refeito sua vida com alguém?

Será que se estivesse viva pensaria nele, lembraria dele ao menos?

Perguntas sem respostas. A vida continuava mas não tinha o mesmo sabor de antes. Já não tinham os bombardeios, mas também não haviam os beijos, o carinho e a presença daquela garota alegre que lhe fazia tanto bem.

De tudo lhe restava o amor que um dia sentiu e ainda queimava seu peito e machucava seu coração.

Seus pais estavam doentes e era certo que partiriam logo. Queriam morrer na terra, que prometiam todos os anos voltar um dia.

George estava estabelecido no Brasil e foi à Jerusalém acompanhar seus pais no último desejo de suas vidas.

No segundo dia saiu para caminhar e sonhar com o impossível.

Era Passover, a Páscoa do povo judeu. Ficou olhando cada detalhe da terra que era de seus antepassados.

Alguém lhe tocou o ombro. Era um amigo da adolescência na Polônia.

George assustou-se.

- Joaquim?!!!

- O próprio! Me dá um abraço que preciso dele - disse o amigo.

- Amigo! Não estou acreditando que estamos vivos e juntos aqui, em Jerusalém!

- Pois é... estamos aqui! Faltando um pedaço, mas vivo.

- Está falando de Eiréne?- George confirmou com um gesto.

- Ela, como todos nós, achávamos que vocês tinham morrido.

George deu um pulo e perguntou ao amigo se sabia alguma coisa dela.

- Sim. Está bem , diferente de seus pais que não conseguiram, Mas ela está bem.

- Por caridade , homem, me diga onde?!

- Nos Estados Unidos.

George com as mãos na cabeça não sabia o que dizer e nem como agir. Só queria naquele momento saber o lugar, um telefone, qualquer coisa. Precisava falar com ela.

Joaquim informou ao amigo que precisava avisá-la antes para que ela não morresse de susto. Além do mais, estava comprometida.

- Comprometida como? Casada?

- Não, ainda não, Mas ao que parece ainda casa este ano.

George chorou como  uma criança e amoleceu o coração do amigo que naquela mesma noite falou com Eiréne e contou do encontro emocionado com George.

Eiréne não sabia dizer mais nada além de " não acredito".

Deu permissão ao amigo para informar seu número a George.

Foi uma ligação longa e cheia de suspiros e silêncios. As palavras não se articulavam.

Alguns anos tinham se passado e nenhum dos dois tinha mais esperança de um reencontro.

Finalmente George disse: - estou indo para aí. Pego o primeiro voo e chego aí

- Não. Disse Eiréne. Eu vou para aí e conversamos, Por favor, deixe eu ir.

- Está bem. Venha logo ou nos encontraremos no caminho.

Dois dias de angústia, de expectativa e medo de Eiréne desistir de encontrá-lo.

Seis horas antes da chegada do voo que traria Eiréne, George já estava no aeroporto, subindo e descendo escadas. Comprando comida e não comendo.

Chegou! Colocou a mão no coração tentando controlar o disparo de suas batidas. Fechava os olhos e abria. Olhava a todos e não via a tão sonhada figura.

Olhava de novo e... sim, ela estava chegando. Como nos seus sonhos, nos seus desejos de saudade. Não via nada de diferente, nem o tempo, nem as dores conseguiram mudar a figura da sua Eiréne. Era ela. A mesma!

Num abraço sem fim, a única pergunta que George conseguiu fazer:

- Quanto tempo você vai poder ficar?

- A vida inteira, se você quiser.

- É desse tempo que precisamos. Uma vida inteira!

George e Eiréne tinham muito a falar e contar o que havia acontecido desde o dia que tiveram que fugir, voar como borboletas de ouro a espalhar-se no mundo.

Essa conversa dura até os dias de hoje, numa casa nos Estados Unidos com uma varanda, onde já cansados pelo tempo, ainda sentam de mãos dadas contando sobre o reencontro, a volta ao Brasil aonde tiveram 3 filhos, e da gratidão pela terra que os acolheu e os fez crescer.

Viajam, passeiam na pracinha, sempre de mãos dadas, como se tivessem medo de se perderem mais uma vez.

" Teus olhos, borboletas de ouro, ardentes
Borboletas de sol, de asas magoadas,
Pousam nos meus, suaves e cansadas
Como em dois Lirios roxos e dolentes..." Florbela Espanca.


sábado, 23 de julho de 2022

Vermelho 36


 " E é no jogo bobo e repetido que vai se revelando: o que passa, o que vem para ficar, o que é só caminho, o que é lugar para morar".

O amor não é um jogo e ninguém pode ser objeto de risco.

Quando se joga com o sentimento do outro, podemos machucar aquela pessoa que usamos como peça de nosso jogo, mas também podemos perder, cair e nos machucar.

Essa é uma história para se refletir sobre nossas escolhas e o quanto elas definem nosso futuro e onde pisamos.

Contamos a experiência de Carol, uma garota bonita, alegre e cheia de amigos.

Apesar de independente, sua família lhe dava grande suporte e isso lhe permitia ter uma vida boa e feliz. Ou quase feliz...

Faltava à Carol o detalhe de ter um amor, alguém que a tirasse da solidão interior.

Viajava, conhecia muitos lugares, mas trocaria a companhia de todos aqueles amigos apenas por uma só, a de alguém que ela tanto esperava sem mesmo saber quem era.

Júlio e Edgar eram amigos de carne e unha. Aquelas amizades que um escreve e o outro assina sem ler.

Um dia estavam falando sobre garotas e nessa conversa surgiu o nome de Carol. " A garota carente".

Não era fácil namorá-la, sempre desconfiada, ficava com um pé atrás quando os rapazes se aproximavam.

Júlio e Edgar discutiam sobre isso e surgiu entre eles a ideia de um desafio.

Cada um garantiu que sabia mais de mulher e tinha certeza que se quisesse conquistar a Carol conseguiria.

Tanto um como outro tinham a mesma certeza. E fizeram uma aposta: lutariam para conquistá-la fingindo não serem amigos íntimos.

Estipularam um prazo e quem perdesse deixaria o campo livre para o outro continuar na luta pela satisfação de seu ego.

Estudaram estratégias de aproximação, métodos de conquista e o mais importante: como se aproximar dela em tempos diferentes para não nascer desconfiança.

- Então, irmão, daqui pra frente é cada um por si - Disse Júlio.

- Perfeito e combinado - Concordou Edgar - mas lembrou sobre as regras.

Porque todo jogo tem regras e esse não seria diferente.

Ficou acertado que não se encontrariam por um período de tempo, até continuarem ou desistirem, caso ficasse muito difícil.

Começou o jogo!

Não foi difícil para os dois rapazes se aproximarem de Carol, tendo em vista alguns amigos em comum.

Se inseriram no grupo e começaram a jogar cada um, o seu charme.

Habituados à sensibilidade feminina, logo conseguiram uma atenção maior de Carol.

Júlio, mais esperto e experiente, descobriu logo o caminho de chegar ao coração da garota.

Adivinhava seus pensamentos, mostrava-se culto, gentil, atencioso e cuidadoso, em pouco tempo Carol não o tirava do pensamento.

Conversava com Edgar também, era simples e sincera, e este, ao contrário de Júlio, não conseguia desenvolver sua prática de conquista.

Edgar tinha vontade de falar com o amigo, mas precisava respeitar as regras do  jogo.

Cada dia mais Carol se encantava com Júlio e Edgar começou a perceber que os dois estavam mais juntos.

Sentiu inveja do amigo, descobrindo em seguida que eram ciúmes mesmo.

Desejou que Carol fosse feliz, de tanto que a estava admirando, mas sabendo que não era verdadeira a aproximação de Júlio, se incomodou com a situação.

Agora era oficial, Júlio e Carol estavam namorando. Dor forte no peito de Edgar.

As vezes desejava que Júlio estivesse realmente gostando dela que aos seus olhos passou a ser a garota mais incrível do mundo, mas se sentia dividido.

No fundo tinha esperanças de que o amigo estivesse apenas fazendo o que haviam combinado e logo se afastaria de Carol, lhe dando, quem sabe, uma chance.

E se Júlio estivesse apaixonado pela Carol assim como ele estava?

De qualquer forma, Júlio conseguiu conquistar a garota.

Admitiu que perdeu o jogo. Hora de deixar o campo e dar os parabéns ao amigo.

Hora de admitir que perdeu. Foi então até o amigo.

- Perdi! - Foi a primeira palavra de Edgar quando se encontrou com Júlio.

- Ahã! Papai aqui é bom de bola meu velho.

- Parabéns, meu irmão. Desejo que vocês sejam muito felizes.

- Loucou? Que besteira de felizes para sempre é essa agora, irmão?

- Vocês estão namorando, vocês vão parar por ai?

- Vão parar não, meu amigo, já parei.

Edgar não sabia o que dizer ao amigo, aliás nem sabia o que estava sentindo.

Tristeza, alegria, um misto de sentimentos tomou conta dele.

Não se conteve, contou a Júlio que estava apaixonado, que nesse tempo viu na garota o que ele sempre esperou encontrar em alguém.

Ficou feliz por ele mesmo e triste por ela, que certamente sofreria com o término com Júlio.

Primeira briga entre os amigos.

Júlio tomou o sentimento de Edgar como traição e disse que covardia por covardia não deixaria Carol livre para ele.

Começou a luta entre os amigos ou ex-amigos agora por diferentes motivos.

Edgar brigava pela Carol e Júlio pelo que entendia ser traição do amigo.

Assim, continuou a namorar Carol passando a morarem juntos.

Não conseguindo levar adiante seu jogo, Júlio começou a demonstrar quem realmente era para Carol.

A máscara caiu em pouco tempo, tornando o relacionamento dos dois insustentável.

Carol perdeu o brilho que ganhara ao se apaixonar por ele, mas não tinha forças para sair daquele sentimento que agora lhe causava tanto mal.

Edgar se sentindo culpado por ter sido parte daquele sofrimento contou a Carol o jogo dos dois para conquistá-la.

Declarou seu sentimento por ela, o que a fez sofrer ainda mais e rejeitar totalmente qualquer contato com os dois.

Edgar perdeu o amigo e o jogo para si mesmo, experimentando da tristeza que Carol sentiu.

Sentiu-se culpado e arrependido de não ter medido as consequências de um jogo tão danoso.

Não se sabe a lição que Júlio levou para si, pois depois de romper com o amigo tomou seu destino se afastando dos grupos de amigos.

Talvez o sofrimento de Edgar pode ter ensinado aos dois, porque as cicatrizes em uma amizade podem reabrir a ferida a qualquer momento.

Carol passou por um período de depressão muito forte, pagou pelo erro dos outros, mas superou sua autoestima e a vontade de viver um amor de verdade.

Descobriu que viver é fonte de prazer e alegria, que o importante são suas escolhas.

Apaixonada pela vida novamente e pelo amor de quem a merece, autorizou dividir sua história para que outras pessoas saibam que um jogador de sentimentos é sempre o maior perdedor de um jogo.

" As nossas paixões são verdadeiras fênix. Quando a mais antiga arde, renasce uma nova das cinzas da primeira".

Johann Goethe

sexta-feira, 17 de junho de 2022

Os olhos de Irene.

 


“Todos nós temos nossa máquina do tempo. Algumas vezes ela nos leva para trás, são chamadas de memórias. Outras vezes nos leva para frente, são chamados sonhos.”

Entre o tempo, a memória e os sonhos, uma lembrança bonita, que nada conseguia apagar.
 
Crescia assim Bento, um rapaz sonhador que não tirava da lembrança sua amiga de infância, Irene.
 
Vizinhos, frequentavam a mesma escolinha, as mesmas festinhas do bairro e tinham os mesmo amiguinhos.
 
Os pais das duas crianças eram amigos, e estar juntos era a normalidade.
 
Irene tinha os olhos bonitos, amendoados e de uma cor não definida. Bento, brincalhão em seus 5 anos, a chamava de olhos de água e Irene, malcriada, o chamava de olhos de barata, por causa do castanho de seus olhos.
 
Depois das “ofensas”, Irene ficava emburrada, mas Bento sabia como fazê-la rir em minutos.
 
Viveram esse encanto até os seis anos, quando as famílias tiveram que seguir suas vidas em caminhos diferentes.
 
Continuaram o contato por pouco tempo ainda, mas tendo cada um seus afazeres, o laço se desfez rapidamente.
 
Ninguém mais ouviu falar do outro, mas sempre que a mãe de Bento conversava com alguém sobre os antigos amigos e mostrava as fotos, Bento olhava com nostalgia.
 
— Lembra da Irene, Bento? – Sim – Sempre a mesma e única resposta.
 
— Lembra nada! – dizia a mãe – por onde será que anda aquele povo, hein, Bento?
 
— Sei não, mãe. Devem estar por aí. Nem lembram da gente mais.
 
E assim era sempre. O assunto parecia incomodar Bento, sua mãe não percebia.
 
As crianças deixam de ser criança muito rápido. E nós nem notamos e continuamos a tratá-las como se vivêssemos na terra do nunca.
 
Bento agora era rapaz, alegre, bonito e cheio de amigos. Mas de seu coração falava com poucos.
 
Lino, Cris e Vitor formavam esses poucos. Cada um com sua história e suas aventuras. Contavam e riam.
 
Bento também partilhava as suas histórias de forma muito bem humorada e com delicadeza quando falava de irene.
 
Perguntavam se ela era bonita e como deveria estar agora, Bento confessava que lembrava das brincadeiras, mas que o rosto de irene, e sua imagem, estavam se desfazendo de sua memória.
 
Isso o inquietava, porque era essa lembrança que lhe fazia um bem enorme.
 
— Mas você lembra se ela era bonita? – Perguntavam.
 
— Sim, lembro que diziam que erámos duas crianças bonitas
 
Os amigos explodiam em gargalhadas.

— Então esquece, amigo. Se vocês eram lindos quando crianças, por você, já dá para ver o que o tempo fez com ela!
 
— Se for assim está linda, até porque eu fiquei mais bonito! – Brincava Bento.
  
— Mas tem uma coisa que não esqueço: seus olhos. Eram olhos de uma cor que ninguém sabia dizer - comentava - eu a chamava de olhos de água e quase apanhava. - Concluía  ele ao mesmo tempo que ria, com ar de saudade.
 
Bento ocupava seu tempo em estudar e trabalhar. Pouco tempo lhe sobrava para namorar. Se divertia, mas a maior parte do tempo era dedicada ao trabalho.
 
Tinha uma paixão que era sua moto. A paixão correspondida era cheia de loucuras, desde andar em uma roda só até competições em estradas.
 
Foi no meio de uma loucura dessas que Bento sofreu um acidente.
 
Precisou ser operado e na sala de cirurgia entre dores e a vontade de viver, pedia para que não o deixassem morrer.
 
— Não se preocupe. Não vamos deixar − disse a enfermeira tentando acalmá-lo.
 
— Bento, num pedido de socorro, segurou sua mão com força e ela chegou mais perto e repetiu a garantia.
 
Um susto para Bento! Aqueles olhos cor de água... eram iguais aos olhos de Irene.
 
Ia dizer isso quando o anestésico fez efeito e ele dormiu.
 
Acordou vivo, como queria, e cheio de dores, como temia. Começou a checagem de ideias e pensamentos. Lembrou dos olhos que o fez recordar os olhos de Irene.
 
— Entortaram minha cabeça, mãe.

— Ai, minha Nossa Senhora da Luz, conserte meu filho...
 
Não consertou, como pediu a mãe. Ao contrário, cada hora tinha mais certeza que aqueles lindos olhos eram os olhos de Irene.
 
Tentou de todas as formas descobrir quem estava na emergência naquela noite, mas muito debilitado não conseguia fazer uma investigação competente.
 
Sua mãe não cooperava, mas ele tinha uma alternativa. Sim, quem tem padrinho não morre pagão. E ele tinha três padrinhos.
 
Pensou em chamar os amigos, mas não foi preciso.
 
A enfermeira que ele pensou fosse Irene, entrou em seu quarto e perguntou: − você é Bento que morava em Santa Cruz?
 
— Sim. Sou eu. E você, é Irene, a menina de olhos de água?
 
Os dois riram muito e confirmaram. Irene, a enfermeira, era a mesma Irene dos tempos de criança.
 
— Vi seu nome no prontuário e me lembrei dos amigos de meus pais que tinham o mesmo sobrenome. Vi também essa marca em sua sombrancelha e lembrei que nosso vizinho tinha essa marca.
 
— Lembrou?! Você lembrou de mim?
 
— Lembrei que tinha um amiguinho que brincávamos sempre.
 
Conversaram muito e um resumiu para o outro esses trinta e cinco anos de separação.
 
Irene estava divorciada e tinha três crianças e Bento, já sabemos de sua vida desde o começo dessa história.
 
Ela o visitava nos dias em que estava trabalhando e Bento passou a sonhar acordado e sem acreditar no que estava acontecendo.
 
Seria milagre? − se perguntava − Mas de quem? Queria beijar os pés desse Santo!
 
Bento se recuperou e saiu do hospital, trocando contato com Irene.
 
— Vou lá te visitar qualquer dia, assim que ficar ótimo – disse ele.
 
— Vai nada! Só “tá” falando. Deve continuar o mesmo pestinha que minha memória alcança.
 
Bento não esperou ficar bem, muito menos ótimo. Se vestiu com o coração aos pulos e avisou a Irene que estava ótimo e que estava indo visitá-la.
 
— Mas já está “ótimo” tão depressa?
 
— Na verdade não. Estou muito mal e preciso ver minha enfermeira.
 
— Sei... sua... pode vir, seu bobo. A enfermeira não é sua não, mas vai lhe ajudar.
 
Ia saindo quando quase foi impedido por sua mãe.
 
— Bento, meu filho, aonde você vai todo remendado desse jeito?
 
— Trocar os curativos, mãe, as feridas estão doendo.
 
— Ah, meu filho, mas não vai só não. Eu vou com você.
 
— Nem pensar, mãe!
 
E saiu quase correndo deixando a mãe falando só.
 
Parado em frente à casa de Irene, não sabia o que iria dizer. O rapaz alegre e conversador ficou tímido de repente.
 
Enfim, estava ali, e queria conversar com sua amiga. Afinal, eram trinta e cinco anos de separação, haveriam de ter muitas histórias para contar.
 
Conheceu os filhos de Irene e os amou. Falou de sua frustração em não ter tido filhos ainda. Brincou com eles, riu, se apaixonou e foi apaixonante, não teve problemas em ajudar a mãe a mandá-los para cama.
 
Na despedida lhe roubou um beijo cedido com muito carinho por Irene.
 
Sentiram que não tinham mais como voltar, a não ser no dia seguinte, e no outro e no outro e nos outros... e ficarem assim, juntos e apaixonados por quarenta anos.
 
Os filhos de Irene, agora de Bento também, lhes deram netos e formaram uma família grande e unida.
 
Bento e Irene faziam tudo que tinham direito em nome do tempo em que ficaram separados.
 
Tudo parecia ir bem, mas a memória de Irene começou a se ausentar. No começo só um pouco, uma vez ou outra, e depois a cada vez que saía do eixo demorava a voltar.
 
Bento conversava muito com ela quando sua memória estava presente e faziam daqueles momentos os mais intensos possíveis.
 
Agora, raramente Irene voltava. Ele continuava passeando com ela todos os dias e repetia incansável todo tempo presente, mesmo quando tinha certeza que não era entendido.
 
— Você é quem mesmo? – Sou seu amor, minha querida. Seu amor de uma vida inteira e serei além do fim. – Dizia ele.
 
— Lembrei! Você é o rapaz magrinho da foto.
 
— Sou, sim, querida. Mas vou melhorar se você quiser.
 
— Quero sim!
 
A família enchia Irene de carinho e atenção.
 
Em um de seus momentos curtos e raros de lembranças que voltavam à sua memória Irene abraçou Bento com muita ternura e lhe fez uma pergunta:
 
— Bento, por que você diz que tenho olhos de água?
 
— Pela cor e saciedade que eles sempre me deram, mesmo quando eu não sabia.
 
— Bento...
 
— Sim, querida?
 
— Não vá embora outra vez. Fique sempre comigo.
 
— Fico meu amor e se você for eu vou te encontrar como encontrei dessa vez; você lembra?
 
Não, já não lembrava, porque tinha viajado novamente e desta vez não voltou mais.
 
Bento, engolindo a dor, agradeceu por ter podido viver o seu grande amor, e o sonho de um dia encontrar Irene mais uma vez, o consolou.
 
O tempo pode passar, mas o sonho... ah, o sonho... esse é infinito e nada pode separar um grande amor.
 

 

terça-feira, 24 de maio de 2022

As Flores que Plantei.

 


Os sonhos estão sempre presentes em nossa vida, diferentes sonhos, e alguns deles conseguimos realizá-los, por sorte, por conquista ou muita luta.

Mas eles estão lá, esperando o seu resgate da fantasia, querendo sempre vir para a realidade e muitas vezes não conseguem. 

Mas, longe ou perto, eles têm a força de nos alimentar e nos fazer viver essa esperança. 

Foi assim com Nara. Vivia em seus sonhos e lutava por eles.

A família era pequena mas viviam com pouco conforto e pouca oportunidade de mudança.

Nara sonhava e acreditava que o esforço traria a sorte; que estudar lhe daria uma vida melhor e poderia ajudar os seus.

Os irmãos não tinham essa mesma força, mas isso não desanimava nossa Nara, e se empenhou para fazer um curso superior.

Trabalhava e estudava. Se matava, mas não esperava acontecer. Ia sempre atrás do que queria, estudar e trabalhar era sua bandeira.

Quem disse que não conseguiu? Conseguiu, sim. Formou-se em Assistência Social e começou uma segunda batalha: vencer um concurso público.

Sua meta agora era vencer ou vencer. Com isso talvez incentivasse os irmãos acostumados com o que a vida lhes dava.

Nara pensava diferente. A vida não dá nada para niguém. No máximo ela te oferece. Se você quiser precisa ir buscar. 

Assim, conseguiu vencer mais uma etapa, subir mais um degrau que a levasse ao que queria para sua vida e da sua família. Sempre pensando neles.

Esse esforço para resolver essa questão, lhe tirara um pouco do tempo de pensar em outros sonhos: amar, casar, ter seus filhos, sua casa...

Mas nunca é tarde quando se tem vontade e determinação.

Conseguiu a casa primeiro.

Agora queria conquistar seu amor, e o outro lado da moeda que não conhecia, o lado do divertimento.

Fez amigos, saía, passeava, se divertia, conheceu pessoas e sentiu o gosto do amor pela primeira vez.

E num grupo de amigos conheceu Frank, um estrangeiro em trabalho em seu país.

Não foi difícil se apaixonar, estava de coração aberto e Frank, era falante, bonito e atraente o suficiente para chamar sua atenção.

O link dos dois foi imediato e com ele, passou ter uma vida como sempre quis.

Foram morar juntos e faziam planos de casar. Talvez ficassem por lá mesmo ou fossem morar no país de Frank. Nesse ponto, estarem juntos era o principal. O resto... bem, o resto se resolveria, não tinha mais como voltar.

Sentiu-se a mulher mais feliz do mundo quando engravidou. Frank queria um filho homem e ela rezava para que fosse feita a vontade de seu querido.

Não queria desapontá-lo, esqueceu que não é em tudo que temos o poder de escolha.

Nessa época conheceu Zita, ficaram amigas inseparáveis, um encontro de almas entre as duas, era o que diziam. Se davam bem, se ajudavam e Frank também se dava bem com ela. 

A barriga crescendo e Zita estava lá, ao lado da amiga quando o marido viajava, a ajudando a viver o sonho do primeiro filho com tudo que a mamãe sonhava.

Embora fosse uma pessoa legal, Frank era desligado, machista e achava que isso era coisa de mulher. Não era participativo tanto quanto Nara desejava, queria mesmo ver a cara do bebê só quando ele chegasse e se apresentasse.

Nara sentia um certo desapontamento, mas a amiga Zita estava lá para dar a força que se precisa nesses momentos.

Numa das viagens de Frank, nasce Thomas, o filho homem que ele tanto queria. 

A amiga Zita fez o lugar dele ao lado da amiga, ajudando a recepcionar o filho dela e seu afilhado, obviamente.

Anunciou ao papai a chegado do bebê: − Parabéns, maluco, teu filho chegou!

— Filho?  Disseste filho? Então é homem igual ao pai?

Ha ha ha, não sei se o pai dele é homem, mas o filho é. – Provocou Zita.

— Fala ai, jure para mim que não é brincadeira tua. Olha que quando voltar te mato!

—Jurar eu não juro não, minha religião não permite, mas parece que é sim. Se duvida vem aqui ver. Foi!

Poucos dias depois chegou para ver o filho. Felicidade era nome pequeno perto da alegria que sentia.

Também, a amizade de Nara e Zita, só crescia e se firmava, passaram por bons e maus momentos juntas, sempre uma apoiando a outra.

Dessas surpresas que atravessam nosso caminho, Zita mudou-se para outra cidade. Partiu desolada pela amiga e pelo afilhado a quem se apegara.

Continuaram mantendo contato frequente, era uma amizade forte, que as raízes são fincadas no solo, resistente a qualquer vendaval.

Logo começaram a chegar os lamentos de Nara sobre Frank. Parecia que as coisas não iam muito bem e a amiga tentava minimizar a situação.

Enfim, o prazo de trabalho de Frank fora de seu país chegou ao fim. Zita tentou ajudar no visto de permanência para ele, mas acostumado a ganhar bem, não queria um trabalho ganhando pouco e voltou para seu país.

Resolveram que ele iria para sua terra juntar algum dinheiro e voltaria para se instalar no comércio e ter um negócio próprio.

Os anos foram se passando e Frank mudou de idéia, já não visitava a família com frequência, isso custava dinheiro em sua opnião e foi deixando o tempo passar. 

Estava bem instalado e pedia para Nara mudar-se de vez, mas ela resistia.

Thomas já estava com 5 anos de idade e sentia falta do pai, embora se falassem ao telefone todos os fins de semana.

Estava perto do Natal e Frank ligou para saber que presente o filho queria.

— Oi, Campeão! Como está tudo aí, está se comportando?

— Estou, pai, mas estou com saudade de você. Quando você vai chegar? Você vem ficar com a gente no Natal?

— Não vou poder, filho. Mas o pai vai mandar o presente que você quiser. Me diga o que você quer e o pai manda hoje o presente que você pedir. 

— Eu quero você.

— Tom, escute, filho. O pai não vai poder ir. Mas estou garantindo, eu mando o seu presente. Pode pedir.

— Não mande nada não. Eu quero você. Eu não quero presente nenhum. – Disse isso e desligou o telefone sem se despedir do pai.

Frank ligou novamente e Nara atendeu.

— Escute aqui Nara, é você que está enchendo a cabeça do menino. Ele nem se despediu de mim. Se você está usando ele para me forçar a voltar, errou, não vou. Espero você aqui se você quiser.

Nara ficou arrasada, triste, isso não era verdade mas mesmo assim se sentiu culpada pela tristeza do filho que estava quieto em seu quarto.

Ligou para Zita  – Amiga, me ajude! O que eu posso fazer nessa situação? Tenho medo de perder meu emprego e não confio em Frank. Ele é hoje e não é amanhã, muda de pensamento rápido. Ir para um lugar que não conheço... me ajude!

— Irmã, primeiro tenha calma. Vamos pensar... por que você não tira uma licença não remunerada do trabalho por um tempo e vai? Assim você pode ver de perto a situação e ajuda o Tom que ama esse pai dele. Se vocês ainda se gostam, tenta.

Esse foi o conselho da amiga que Nara aceitou imediatamente. Tentou a licença e conseguiu se afastar por um ano.

Thomas vibrou com a notícia e quis ligar para o pai naquele momento:  – pai, sabe o Papai Noel? Ele já passou, mas disse que meu presente de ver você está valendo. Nós vamos ficar com você!

Frank ficou feliz e quis confirmar com Nara. Ela confirmou mas achou prudente não contar que estava só afastada do trabalho. Queria sentir de perto como ele estava e como reagia com a presença deles e ela dependendo dele.

Viajaram. Felicidade do Thomas e preocupação de Nara. Por precaução, não se desfez de nada e deixou uma de suas irmãs cuidando da casa.

Encontrou Frank feliz, foi uma boa recepção e ele estava bem instalado comercialmente. E em algumas semanas eles voltaram a se relacionar com o amor que ela pensava tinha esfriado,  passando a ajudá-lo no trabalho também.

Embora esforçado, ele tinha umas saídas misteriosas, e quando ela o questionava virava briga. Ele a chamava de ciumenta e que queria vigiar os seus passos.

O dinheiro começou a escorrer pelo ralo. 

Frank Sempre foi gastador, mas agora estava mais ainda.

Dizia que eram compromissos da loja e que precisava pagar.

Não saiam, não tinham vida social. Era só trabalho e Nara o ajudando muito e ele aproveitando essa ajuda para ficar mais livre.

Passados alguns meses Nara engravidou do segundo filho. Alegria se misturava com a preocupação, mas pensou que com dois filho talvez Frank se tornaria mais reponsável.

Hora de contar a novidade. Ele ficou feliz e mais uma vez disse que queria que fosse um filho homem.

— Eu vou torcer por uma menina – disse Nara.

— Nada disso. Tem que ser mais um garoto!

— Quero que venha com saúde, mas vou torcer por uma menina, você não pensa em termos uma menina? É tão lindo um casal de filhos!

— Nara, veja bem, tem coisas que a gente não conta para não estragar outras.

— Como assim? O que uma coisa tem a ver com a outra?

— Tem tudo. Você sempre me pede para falar a verdade não é?

— Sim – Respondeu Nara. − Então vamos a ela: eu te conheci e te amei. Se eu contasse que tinha uma família aqui você me aceitaria?

— Continue... – disse Nara já pressentindo o que viria a seguir.

Frank contou então que era casado e a família morava numa cidade bem perto dalí, de onde eles estavam, que tinha três filhas adultas, quase na idade de irem para Universidade e era essa a despesa maior que ele estava tendo.

Era um pai ausente e tentava compensar fazendo as vontades das filhas.

A mulher dependia dele, sabia de tudo e não se importava desde que eles não se separassem.

Propôs então os três viverem juntos, na mesma casa, uma família só.

Nara estava prestes a explodir, lembrou do bebê e se controlou. Disse apenas NÃO! Taxativo e definitivo.

A noite Frank a procurou e disse que a mulher estava na sala e que não se importava em conhecê-la e serem amigas.

Frank não conhecia até então a fúria de uma mulher ferida em seus sentimentos, em sua dignidade.

Nara disse tudo que teria dito quando o conheceu, se soubesse a verdade. Ela disse que iria embora e ele a desafiou: − Embora? Como? Com que dinheiro? Com quais documentos? Você nem a língua desse país sabe. E agora com mais um filho meu.

Vá, o Tom fica comigo e depois que esse aí nascer vai ficar também.

Nara foi andar e chorar. Como sentiu falta da amiga Zita... 

Ligou rápido para amiga e pediu que ela a chamasse já que ela não tinha dinheiro para pagar a chamada, mas que precisava falar com ela.

Zita não falhou. Ligou de volta para amiga, que chorava copiosamente.

— Calma, amiga, fale o que aconteceu. Pense no bebê e vamos conversar.

Nara contou tudo e Zita falou para ela esperar uma oportunidade, procurasse uma embaixada, um Consulado, se não conseguisse ela tentaria. 

Sugeriu para ela tentar aparentar calma para que ele não percebesse que ela estava tentando ir embora.

Nara sabia que contava com a amiga até para o dinheiro, caso precisasse. 

Os próximos dias seguiram num clima ruim mas sob controle. Ela pediu dinheiro para ir ao médico e comprar algumas coisas para o bebê.

Assim foi guardando dinheiro sem ir ao médico, a neglicência de Frank, enfim, ajudava em alguma coisa.

Pegou seus documentos de volta e muito calmamente tentou (a conselho de Zita) conversar com Frank mansamente (fazendo das tripas coração), sobre ter o bebê em seu país.

— Sabe Frank, minha gravidez é de risco e conversei com os médicos do hospital e eles concordam que se eu for ter o bebê no meu país será melhor. Tem minha família que pode me ajudar e aqui eu não tenho ninguém, não conheço o idioma...

Como as coisas estavam calmas ele disse que ia pensar. Pensou e concordou.

Nara voltou aliviada para sua terra. Teve seu filho e voltou ao seu trabalho e recomeçou sua luta como mãe solteira, sem contudo privar seus filhos do contato com o pai. 

Foi difícil para Thomas entender, mas aceitou com um pouco de revolta. 

Nara cumpriu sua parte com louvor. Deu aos filhos tudo que pode, os mimou demais. Frank tornou-se um pai apenas de contato sem dar apoio a Nara. Mas ela soube conduzir seus meninos, hojes rapazes donos de suas vidas.

Com Zita continua a amizade à distância, e sempre que se despedem, é com muito carinho.

Nara continua seu trabalho e leva sua vida conformada com as flores colhidas de tudo que plantou!

“Já tive a rosa do amor- rubra rosa, sem pudor. Cobicei, cheirei, colhi. Mas ela despetalou e outra igual nunca mais vi. Muito da vida eu já quis... eu já quis, mas não quero mais...”

 

Helenita Scherma

 

Borboletas de Ouro...

  As flores brotam em lugares e em tempos mais improváveis. Assim é o amor. Em meio à pedras, dificuldades e até mesmo uma guerra, ele surge...