sábado, 23 de julho de 2022

Vermelho 36


 " E é no jogo bobo e repetido que vai se revelando: o que passa, o que vem para ficar, o que é só caminho, o que é lugar para morar".

O amor não é um jogo e ninguém pode ser objeto de risco.

Quando se joga com o sentimento do outro, podemos machucar aquela pessoa que usamos como peça de nosso jogo, mas também podemos perder, cair e nos machucar.

Essa é uma história para se refletir sobre nossas escolhas e o quanto elas definem nosso futuro e onde pisamos.

Contamos a experiência de Carol, uma garota bonita, alegre e cheia de amigos.

Apesar de independente, sua família lhe dava grande suporte e isso lhe permitia ter uma vida boa e feliz. Ou quase feliz...

Faltava à Carol o detalhe de ter um amor, alguém que a tirasse da solidão interior.

Viajava, conhecia muitos lugares, mas trocaria a companhia de todos aqueles amigos apenas por uma só, a de alguém que ela tanto esperava sem mesmo saber quem era.

Júlio e Edgar eram amigos de carne e unha. Aquelas amizades que um escreve e o outro assina sem ler.

Um dia estavam falando sobre garotas e nessa conversa surgiu o nome de Carol. " A garota carente".

Não era fácil namorá-la, sempre desconfiada, ficava com um pé atrás quando os rapazes se aproximavam.

Júlio e Edgar discutiam sobre isso e surgiu entre eles a ideia de um desafio.

Cada um garantiu que sabia mais de mulher e tinha certeza que se quisesse conquistar a Carol conseguiria.

Tanto um como outro tinham a mesma certeza. E fizeram uma aposta: lutariam para conquistá-la fingindo não serem amigos íntimos.

Estipularam um prazo e quem perdesse deixaria o campo livre para o outro continuar na luta pela satisfação de seu ego.

Estudaram estratégias de aproximação, métodos de conquista e o mais importante: como se aproximar dela em tempos diferentes para não nascer desconfiança.

- Então, irmão, daqui pra frente é cada um por si - Disse Júlio.

- Perfeito e combinado - Concordou Edgar - mas lembrou sobre as regras.

Porque todo jogo tem regras e esse não seria diferente.

Ficou acertado que não se encontrariam por um período de tempo, até continuarem ou desistirem, caso ficasse muito difícil.

Começou o jogo!

Não foi difícil para os dois rapazes se aproximarem de Carol, tendo em vista alguns amigos em comum.

Se inseriram no grupo e começaram a jogar cada um, o seu charme.

Habituados à sensibilidade feminina, logo conseguiram uma atenção maior de Carol.

Júlio, mais esperto e experiente, descobriu logo o caminho de chegar ao coração da garota.

Adivinhava seus pensamentos, mostrava-se culto, gentil, atencioso e cuidadoso, em pouco tempo Carol não o tirava do pensamento.

Conversava com Edgar também, era simples e sincera, e este, ao contrário de Júlio, não conseguia desenvolver sua prática de conquista.

Edgar tinha vontade de falar com o amigo, mas precisava respeitar as regras do  jogo.

Cada dia mais Carol se encantava com Júlio e Edgar começou a perceber que os dois estavam mais juntos.

Sentiu inveja do amigo, descobrindo em seguida que eram ciúmes mesmo.

Desejou que Carol fosse feliz, de tanto que a estava admirando, mas sabendo que não era verdadeira a aproximação de Júlio, se incomodou com a situação.

Agora era oficial, Júlio e Carol estavam namorando. Dor forte no peito de Edgar.

As vezes desejava que Júlio estivesse realmente gostando dela que aos seus olhos passou a ser a garota mais incrível do mundo, mas se sentia dividido.

No fundo tinha esperanças de que o amigo estivesse apenas fazendo o que haviam combinado e logo se afastaria de Carol, lhe dando, quem sabe, uma chance.

E se Júlio estivesse apaixonado pela Carol assim como ele estava?

De qualquer forma, Júlio conseguiu conquistar a garota.

Admitiu que perdeu o jogo. Hora de deixar o campo e dar os parabéns ao amigo.

Hora de admitir que perdeu. Foi então até o amigo.

- Perdi! - Foi a primeira palavra de Edgar quando se encontrou com Júlio.

- Ahã! Papai aqui é bom de bola meu velho.

- Parabéns, meu irmão. Desejo que vocês sejam muito felizes.

- Loucou? Que besteira de felizes para sempre é essa agora, irmão?

- Vocês estão namorando, vocês vão parar por ai?

- Vão parar não, meu amigo, já parei.

Edgar não sabia o que dizer ao amigo, aliás nem sabia o que estava sentindo.

Tristeza, alegria, um misto de sentimentos tomou conta dele.

Não se conteve, contou a Júlio que estava apaixonado, que nesse tempo viu na garota o que ele sempre esperou encontrar em alguém.

Ficou feliz por ele mesmo e triste por ela, que certamente sofreria com o término com Júlio.

Primeira briga entre os amigos.

Júlio tomou o sentimento de Edgar como traição e disse que covardia por covardia não deixaria Carol livre para ele.

Começou a luta entre os amigos ou ex-amigos agora por diferentes motivos.

Edgar brigava pela Carol e Júlio pelo que entendia ser traição do amigo.

Assim, continuou a namorar Carol passando a morarem juntos.

Não conseguindo levar adiante seu jogo, Júlio começou a demonstrar quem realmente era para Carol.

A máscara caiu em pouco tempo, tornando o relacionamento dos dois insustentável.

Carol perdeu o brilho que ganhara ao se apaixonar por ele, mas não tinha forças para sair daquele sentimento que agora lhe causava tanto mal.

Edgar se sentindo culpado por ter sido parte daquele sofrimento contou a Carol o jogo dos dois para conquistá-la.

Declarou seu sentimento por ela, o que a fez sofrer ainda mais e rejeitar totalmente qualquer contato com os dois.

Edgar perdeu o amigo e o jogo para si mesmo, experimentando da tristeza que Carol sentiu.

Sentiu-se culpado e arrependido de não ter medido as consequências de um jogo tão danoso.

Não se sabe a lição que Júlio levou para si, pois depois de romper com o amigo tomou seu destino se afastando dos grupos de amigos.

Talvez o sofrimento de Edgar pode ter ensinado aos dois, porque as cicatrizes em uma amizade podem reabrir a ferida a qualquer momento.

Carol passou por um período de depressão muito forte, pagou pelo erro dos outros, mas superou sua autoestima e a vontade de viver um amor de verdade.

Descobriu que viver é fonte de prazer e alegria, que o importante são suas escolhas.

Apaixonada pela vida novamente e pelo amor de quem a merece, autorizou dividir sua história para que outras pessoas saibam que um jogador de sentimentos é sempre o maior perdedor de um jogo.

" As nossas paixões são verdadeiras fênix. Quando a mais antiga arde, renasce uma nova das cinzas da primeira".

Johann Goethe

19 comentários:

Vida disse...

Que loucura!
Vida real, dolorida e dramática, mas que bom que ela se deu uma nova oportunidade.

Angélica disse...

Amei!

dinah disse...

Nunca devemos brincar com o sentimento de ninguém. Adorei a historia

Anônimo disse...

Belo, porém dramático, esse lindo conto.
Resumindo meu comentário com o último post que fiz outro dia: Aah! O amor! O amor é um negócio sério!

Não se brinca com o sentimento.

Anônimo disse...

Que absurdo jogar com o sentimento das pessoas !!

mantoliva disse...

Belíssima história, aprendendo a não brincar com sentimentos, para bens, texto gostoso de ler!!

Diana Scarpine disse...

Que história linda e reflexiva! Amei!

Abraços,
Diana Scarpine

elkepoetisa@gmail.com disse...

Texto leve e bonito ! Gosto muito deste blog.

Eduardo Chiarini disse...

Bela historia! Intocáveis e sensíveis, os sentimentos não poderiam ser nunca motivos para jogos e diversão.
Parabéns ao pessoal do blog com historias sempre belas e reflexivas.

Anônimo disse...

Razão e emoção criando espaço entre eles em uma batalha perigosa
com os sentimentos do outro
disputando o poder e impondo regras sem responsabilidade afetiva...

Triste história!
Pouco amor e muito ego!
Aplausos, querido amigo.
Obrigada por compartilhar conosco.

Lea disse...

As melhores palavras que encontrei para comentar esse jogo (história)
são palavras atribuídas a Bob Marley:
"A maior covardia de um homem é despertar o amor de uma mulher
sem a intenção de amá-la". Parabéns ao Blog pela história.

Cecilia disse...

Muito difícil uma decepção amorosa, muito mais pelo motivo que foi,
uma brincadeira de egos.

Nélia Flores disse...

Num jogo de egos as peças se quebram e os jogadores
certamente continuarão jogando por aí.

Rochela disse...

Já passei por um jogador e garanto que a experiência não é boa.
Amigos e família ajudam no momento que o mundo da genter cai.
Obrigada a Carol que autorizou sua história. A gente fica
sabendo que não fomos as únicas vítimas. Felicidade.

Pauline disse...

Fliz pela recuperação de Carol.

Navena disse...

Uma história que me emocionou bastante. Feliz pela recuperação de Carol, que espero seja muito feliz. Obrigada por compartilhar. Mando meu amor aos meninos do blog.

Steven disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Steven disse...

Uma bela história, principalmente pelo final, com a superação
da guria e esperamos com a lição aprendida pelos rapazes,
como é a proposta no início da narrativa.
Parabéns ao pessaol do blog pela escolha.
Abraços

Alex disse...

The heart in unpredictable...and to play with it is a certainty of heartache...playing games of the heart is such foolishness. I'm happy that Carol was able to rise above and move on, hopefully finding someone who treats her heart as precious.

Vermelho 36

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