domingo, 27 de março de 2022

Amor em preto & branco.

 


“Na verdade, embaixo da pele, todo mundo é vermelho!”

Mas vamos deixar essa questão para mais adiante, vamos ver o comecinho de nossa história conhecendo uma família do interior do Brasil.

Lá, distante da capital, nasceu Nate, o apelido de Natália, filha única de Rosa e neta de dona Arminda.

Rosa nunca contou para niguém quem era o pai de Nate. O que se sabe é que ela era namoradeira, mas se apaixonou por um rapaz que nunca se deixou ver com ele.

Nascida Nate, Rosa deixou o encargo maior de criar a menina para sua mãe e saía para trabalhar.

Depois de ter a filha, nunca mais quis namorar. Cobriu-se de desgosto e depois do trabalho encontrava-se com alguns amigos na vendinha perto de casa para desopilar tomando uma cerveja.

Com o tempo esse hábito foi se tornando parte de sua rotina e a bebida virou conforto para os dias tristes, celebração para os dias alegres, remédio para quando estava doente... enfim, tornou-se parte principal de sua vida.

Dona Arminda reclamava, aconselhava e falava o quanto Nate precisava dela. Já estava crescida e se envergonhava ao ver a mãe trocando as pernas ao andar.

Nate era muito inteligente e dona Arminda a incentivava a estudar para ter uma profissão e uma vida diferente daquela em que viviam.

Os conselhos não foram em vão. Nate seguiu a cartilha da avó e se preparou para ser sempre a melhor da classe.

Aqui começa a nova vida de Nate, quando foi convidada para se inscrever em uma faculdade nos Estados Unidos.

Conseguiu êxito e apoio dos professores e amigos que cativara desde que mudou-se para a capital para estudar, tudo com ajuda de sua avó, através de suas patroas, para quem fazia faxina.

Chegou o dia de sua viagem, iria conhecer um mundo novo, diferente, sabido só através dos livros e filmes que tanto gostava.

Agora já no avião, sua mente passeava entre as mais remotas lembranças com sua mãe presente e ao mesmo tempo distante; sua avó cheia de sabedoria e proteção...

E agora, como seria sua vida? Teria amigos? Amores?

Dormiu. Acordou já no país do Tio Sam.

Na nova terra o frio do começo de outono lhe despertou. Sentiu também um frio na barriga, mais forte de que todas as outras vezes que enfrentara novas situações.

Quando chegou no Campus da Universidade teve a sorte de dividir o alojamento com outras  três garotas que se identificaram de imediato.

Ponto para sorte de Nate. Começou a sentir-se mais à vontade e em poucos dias eram um grupo animado e divertido.

A noite estudavam na biblioteca e fugiam um pouco para a cafeteria.

− Olha lá, Nate, aquele bonitão está olhando para você! – Apontou  Rebecca.

− Para mim? Imagina!

− Sonsa!! Disseram todas rindo muito.

Os encontros “casuais” ficaram frequentes e Nate já sentia falta da presença do “bonitão” quando ele não aparecia.

Seu nome era Joe, aluno do 4˚ ano do mesmo curso em que a Nate estava começando.

Como ficamos sabendo? A chefe do  Grupo, Alícia, que era o capeta em figura de gente, se encarregou de descobrir a vida inteira do rapaz.

Mandaram um torpedo para o tímido Joe em nome de Nate o convidando para o aniversário imaginário de uma delas, e outro torpedo para Nate a convidando para o aniversário de Joe.

Plano perfeito? Parece que sim. Funcionou para o encontro, e as boas gargalhadas dos enganados e o início de um namoro cheio de paixão.

Tudo que todo mundo quer.

Passaram-se alguns meses e Joe começou a falar de Nate para a familia. Queria que eles a conhecessem.

Eles moravam em um estado não muito longe e começavam a planejar o encontro com Nate, que a chamavam de “a brasileira.”

— E a brasileira, Joe? Como vocês estão indo? – Perguntava a mãe.

— Está bem e feliz, mãe. Sempre manda recomendações a todos.

— Mande o mesmo, querido e nos mande uma foto dela, imaginamos que seja muito bonita. As brasileiras são bonitas, alegres, muito mais bonitas de que essas branquelas americanas sem sal.

Joe tentava sair logo da conversa. Como diria para a mãe que Nate era bonita sim, mas era branca, tão branca quanto as americanas?

Por isso evitava mandar qualquer foto dela ou alongar o assunto. Conhecia sua mãe e o quanto ela era radical e orgulhosa em ser afrodescendente, jamais aceitaria uma pessoa branca na família.

Joe apostava no carisma de Nate e contava como certa a aceitação dela na família dele.

Cada dia os dois, Nate e Joe, ficavam mais apaixonados e começavam a fazer planos.

Era um casal feliz e não se incomodavam com o fato de raça ou cor. Para eles, o amor não tinha cor específica, mais ainda: o amor não precisa de cores para ser radiante e forte.

Tinham uma grande afinidade, um objetivo e a vontade de ficarem juntos. Isso era o suficiente.

Chegou um feriado e eles encontraram a oportunidade de ficarem uns dias com a família de Joe. Seria a oportunidade para Nate encantar a todos como o encantou − pensou ele.

Não contou para Nate o modo de pensar de sua família e da maioria dos grupos afrodescendentes nos Estados Unidos.

Pouco falavam sobre coisas que para eles não tinha importância, ou não fazia diferença como era o caso do preconceito velado por parte dos brancos e aberto por parte das pessoas afrodescendentes.

Em uma tarde quente de quase final de primavera, o casal chegou para o ansiado encontro.

Entraram e Joe foi logo gritando por sua mãe: — Mãe, venha aqui! Depressa antes que a brasileira se arrependa e vá embora – Brincou ele.

A mãe veio no mesmo tom de alegria do filho: segura ela aí, filho, estou indo!

Dona Evelyn vinha quase correndo e parou de uma vez quando viu os dois, filho e futura nora de mãos dadas em sua sala.

Ficou em choque. Fechou a cara e chamou Joe para outra sala deixando Nate sem saber o que estava errado.

Segundos depois, Nate descobriu o que estava acontecendo quando ouviu a voz alterada de dona Evelyn perguntando ao filho: — Que raios te fizeram trazer esse lixo branco aqui para dentro de casa?

— Calma, mãe, vamos conversar. Fale mais baixo que ela pode ouvir.

— Quem se importa? Respondeu a mãe muito brava.

— Mãe, a gente está junto e é para valer. Ela pouco se importa com essa coisa de cor ou raça e eu, menos ainda.

— Mas eu me importo! – disse dona Evelyn. − E se você quer ficar junto com ela, que fique, a escolha é sua. Mas saiba que você morre para mim e eu para você.

— Mãe, veja que situação você me coloca. Seja razoável – implorou Joe.

— Escute aqui, senhor Joe, pense e faça sua escolha. Leve essa pessoa daqui. Te dou uma hora para você resolver com quem você escolhe ficar: com sua família ou com ela.

Joe Sabia que a mãe estava falando sério. Saiu levando Nate e tentando explicar o que não tinha explicação e nem sentindo para ela.

Ele lhe disse que precisa conversar com a mãe, acalmá-la e que a deixaria em um hotel e voltaria em seguida.

Nate, desapontada, cheia de questionamentos, com a vida inteira passando em sua frente, ligou para a amiga Rebecca pedindo que lhe mandasse dinheiro para ela ir embora.

— Quando eu chegar te conto, amiga. Só preciso desse favor agora porque como você sabe não tenho nem onde cair morta.

— Calma, amiga. Procure um lugar onde tenha possa receber um envio rápido de dinheiro e te mando o dinheiro agora.

O grupo fez uma reunião de amigas em caráter de urgência.

Precisavam fortalecer a Nate, dar apoio, interferir, fazer qualquer coisa para eles não se separarem.

Horas depois, Nate chegou no alojamento e tentou explicar a situação para suas amigas.

Ela não parava de chorar e repetia que não entendia a atitude da mãe de Joe e muito menos a do próprio Joe, que deveria estar ainda na casa de sua mãe; ter tido uma conversa e a deixado falar com ela.

Mais tarde, Joe chegou e tentou conversar com Nate que não queria conversar naquele momento. Precisava pensar, digerir o ocorrido.

O grupo amigo entrou em ação e conseguiu contornar tudo explicando para Nate um pouco mais dos motivos de dona Evelyn e a importância para os dois se unirem agora em nome do que sentiam.

Joe contou para Nate que não concordava com a mãe mas compreendia suas dores. Que havia dito para ela que não tinha como escolher entre ela e Nate.

Mas preferia viver esse amor, e que estaria sempre ali para ela, sua mãe.

O tempo passou e dona Evelyn não arredou o pé da decisão de não querer mais contato com o filho.

Não atendia suas chamadas, bloqueou os contatos digitais e devolvia as cartas que Joe enviava numa tentativa de alcançá-la.

Chegou o dia de sua formatura e Joe mandou o convite para a mãe,  que logo devolveu.

Joe e Nate casaram e mandaram o convite para  dona Evelyn que prontamente também devolveu.

Eles estavam felizes, mas a alegria não era completa. Joe sentia falta da família, e Nate sentia falta de ter uma família e desejava muito se unir à família de seu amado.

Nasceu o primeiro bebê de Joe e Nate.

Eles então, mandaram a foto do bebê para dona Evelyn. Notando que em todas as outras tentativas ela não se dera ao trabalho sequer de abrir o envelope, Joe escreveu por fora em letras garrafais:

MÃE, NOSSO CORAÇÃO ESTÁ ABERTO. DENTRO DESTE ENVELOPE ESTÁ A FOTO DE SUA PRIMEIRA NETA, EVELYN, EM SUA HOMENAGEM. TE AMAMOS!

Dona Evelyn recebeu o envelope como recebia toda a correspondência do filho, e como das outras vezes a devolveu.

A diferença é que desta vez ela foi devolver em pessoa.

Nate a recebeu com um abraço e dona Evelyn correu para abraçar sua neta, de sangue vermelho, assim como o dela.

Percebeu que quando queremos, a vida tem a cor branca, que representa a paz e a cor preta que representa a força acima de todas as cores.

"... nem tudo na vida precisa ser colorido, basta ser em preto e branco. Simples assim!" [ Lenilson Xavier]

segunda-feira, 14 de março de 2022

Enfim... Nós!

 


Um elo que não deveria ser quebrado às vezes se parte por circunstâncias ou consequências.

Qual o preço de juntar os cacos espalhados?

Saberemos nessa história contada por uma família que vivenciou cada pedaço de cacos espalhados.

A história de João, um bom menino, que aos poucos foi se transformando em função dos acontecimentos da vida.

Lita e Tarso, um casal comum com dois filhos crescidos.

O primeiro filho, Sérgio, trabalhava viajando muito, tendo sua base na casa dos pais.

Leandra era uma filha problema, bem mais jovem que Sérgio, não queria nada com os estudos.  Amava se divertir e namorar, era essa sua vida.

De nada adiantavam os conselhos de sua mãe ou os castigos de seu pai. Ela sempre dava um jeito e saía, quando não os confrontava.

Namorava um rapaz que não tinha boa reputação entre os próprios amigos. Vivia envolvido com drogas e Leandra embarcou nessa aventura.

Os pais já estavam cansados de orientar, pedir, reclamar... nada resolvia.

Leandra engravidou e nem mesmo a gravidez a segurava em casa.

Os problemas começaram a envolver a polícia.

Leandra por diversas vezes foi detida por estar usando drogas.

A família já sem dinheiro para pagar as constantes fianças de soltura da filha e o irmão, Sérgio avisou que não se envolveria e assim o fez.

Em uma das várias vezes que estava detida e já grávida, nasceu João.

Como por milagre, nasceu saudável, sem sequelas aparentes.

Os dois foram para casa depois de alguns dias no hospital. O parto tinha sido cheio de problemas para Leandra.

Leandra estava amando e; empolgada com o filho prometeu aos pais se afastar da vida louca que levava.

Os pais se propuseram a ajudá-la, mas na condição de que ela trabalhasse e tomasse a responsabilidade do filho.

Eles viviam de uma pensão e da ajuda que Sérgio dava.

João crescia e Leandra se apegava a ele a cada dia.

Trabalhava e com ajuda dos pais cuidava do filho.

Tudo se encaminhava, até que o namorado, pai do João, resolveu aparecer e conhecer o filho, assim, de repente.

Dona Lita dispensou a visita e tentou evitar que ele se encontrasse com Leandra.

Não adiantou.

Começaram os encontros e Leandra começou a não voltar para casa depois do trabalho, deixando tanto o filho João aos cuidados da mãe, bem como dona Lita preocupada com o que já adivinhava.

Leandra largou o trabalho e voltou à vida de antes.

O casal, mesmo sem trabalho, resolveu morar junto e levar João com eles.

A única forma de conseguir dinheiro para o sustento e para o vício era vender drogas.

Em pouco tempo foram presos. A criança foi levada para uma casa de pais provisórios, já que Leandra se negava a dar informação sobre a família.

A casa já tinha várias crianças e não davam a devida atenção às crianças; e João pagou mais uma vez, o preço dos desmandos de uma família desestruturada.

Passado um ano e precisando de um advogado, Leandra resolveu entrar em contato com os pais.

Contou o que havia acontecido e de que nada sabia do destino do filho, deixando Dona Lita e Tarso angustiados.

Pediram ajuda a Sérgio, justificando que era pela criança e não por Leandra.

Sérgio se informou e encontrou o sobrinho. Ficou tocado ao ver a situação dele e resolveu pedir a custódia de João.

Disse aos pais que cuidaria do menino daquele dia em diante, entretanto impôs uma condição de não aceitarem mais Leandra em casa.

Resolvidas as questões legais, com as quais Leandra concordou, Sérgio passou a cuidar de João como se fosse seu filho.

Os dois se apegaram à medida que o tempo passava, crescia o amor entre eles, deixando em João a lembrança de sua mãe cada dia mais distante.

Julgada, Leandra foi condenada e passaria alguns anos na cadeia. Lá pode pensar no que era realmente importante na vida dela, ou seja, ela mesma e o seu filho João

Sendo os avós de João já de certa idade, Sérgio se preocupava em uma referência feminina que os acompanhasse e formasse uma família.

Sendo solteiro, entrou em um site de relacionamentos e encontrou Tânia em outro país.

Fizeram amizade e em pouco tempo tinham um relacionamento com muita cumplicidade e boas perspectivas.

Tânia estava ansiosa para conhecer João e ele a ela.

Chegou o dia e eles se encontraram e tudo foi perfeito.

Resolveram casar e morar junto com os pais de Sérgio, já que a casa era grande, fizeram uma boa divisão e tudo parecia dar certo.

Tânia era muito inteligente e não foi difícil encontrar um emprego no novo país, agora já casada.

Sérgio, Tânia e João formavam uma família bonita, animada, e João finalmente era feliz.

Em pouco tempo, Tânia engravidou e mudou de ideia de ter um sobrinho do marido junto a eles.

Queria cuidar de sua própria família e assim começou a reduzir os gastos com o sobrinho João.

A escola particular de João entrou na lista de supérfluos, bem como suas atividades de esporte.

Resolveram comprar um apartamento para a sua família e com isso a ajuda que Sérgio dava aos pais precisou ser cortada também.

João já não fazia parte dos passeios dos dois. Ficava sempre com os avós e com isso foi modificando suas atitudes.

O bebê do novo casal nasceu prematuro, sendo as visitas proibidas, mesmo sendo João e os avós.

Os avós de João agora eram convidados seguidamente a irem à escola por mau comportamento do menino.

O garoto antes dócil e brincalhão era agora agressivo e mal-educado, sempre criando problemas.

Sérgio e Tânia se afastaram de vez da antiga família e dos amigos que tentavam conversar com eles sobre a situação de João.

Tânia conseguia convencer Sérgio de que o mais importante era a família criada por eles.

Dizia que João, pela situação de seus pais, carregava em si coisas deles que não seria uma boa influência para sua criança e os outros filhos que chegassem.

João se tornou “persona non grata” junto aos seus amigos por ser um garoto agressivo e grosseiro.

Era preocupante mas nada se podia fazer.

Os avós pediram ajuda a Sérgio para levá-lo a um psicólogo, mas isso ficou na promessa.

Os avós de João mudaram-se para uma casa pequena, em um bairro afastado porque não podiam mais manter a casa grande.

Todas essas mudanças afetavam o menino, que ficava cada vez mais revoltado.

As notas na escola iam muito mal e uma professora tentou ajudá-lo fora do horário de aula, mas nada fazia o garoto cooperar.

Crescia e se isolava. Não tendo com quem brigar, brigava na rua, por nada.

Finalmente, cumprido seu tempo de detenção, Leandra recebeu sua liberdade sem saber muito o que fazer.

Procurou os pais, que livres do apoio de Sérgio, a receberam e lhe contaram como havia sido esses anos para o João.

Os pais a aconselharam a ir à escola e procurar a professora que tanto quis ajudá-lo.

Foi um encontro definitivo para Leandra, que sentia-se culpada pelas emoções fragilizadas de seu filho.

Tudo que passou na prisão a fizeram enxergar aquilo que não via em liberdade.

Aceitou a ajuda da professora que conhecendo a história do menino tinha carinho por ele.

Dividiu esse carinho com Leandra, e pouco a pouco foi ajudando-a a conquistar o filho, que ainda rejeitava sua companhia.

Procuraram ajuda psicológica na universidade onde o filho da professora estudava.

Passadas as dificuldades primeiras, Leandra aprendeu a se aproximar de seu filho.

Reconheceu que precisava mais do que força de vontade para não caminhar mais pela mesma estrada onde se perdeu no passado.

A professora, agora amiga e conselheira, a convidou para trabalhar com ela numa cidade do interior, bem estruturada onde poderia dar um boa qualidade de vida ao filho.

Com tantas novidades na vida do João, ele foi percebendo que tudo que lhe faltava estava ali agora.

Um carinho que desconhecia e que havia experimentado por tão pouco tempo, agora estava perto, totalmente seu, sem a interferência do que os havia separado.

Fizeram a mudança e combinaram entrar na nova casa com o pé direito.

Leandra, emocionada com a felicidade de João gritou feliz... Enfim, Nós!

“Você Não pode voltar atrás e fazer um novo começo, mas você pode começar agora e fazer um novo fim” [Chico Xavier].

domingo, 27 de fevereiro de 2022

Secretamente feliz!

 


Felicidade é um estado de espírito, pessoal e intransferível.
 
Há pessoas nascidas com a disposição de ser feliz e com essa força.
 
Mas, e quando tem pessoas lutando contra?
 
Vejamos a história de Emília, uma mulher que não se quebrava fácil, e sabia exatamente aonde queria chegar.
 
Casou por amor, teve um casal de filhos, Inácio, o mais velho e Janete. Os dois quase da mesma idade.
 
A família tinha uma vida modesta mas confortável. Com algum esforço conseguiram comprar a casa própria.
 
Enquanto as crianças cresciam e quando tudo parecia bem, o destino levou seu Moisés, marido de Emília.
 
Ela ficou triste, abalada, mas ela não combinava com a tristeza, guardava seu Moisés e as boas lembranças de seu amor dentro do coração, afinal, tinha duas crianças ainda pequenas e precisa cuidar.
 
A pensão deixada por seu Moisés não era suficiente, Emília então resolveu complementar a renda da família fazendo o que mais gostava, que eram doces e bolos, o que aliás, fazia muito bem.
 
Conversou com a vizinhança, com uma loja de doces e na padaria de um casal de amigos desde a juventude.
 
Tudo acertado, começou o trabalho aumentando a renda que se tornou suficiente para as exigências de Janete e os livros caros de Inácio.
 
Os filhos cresceram, se formaram e cada um foi cuidar de  sua vida.
 
Janete era independente, mudou-se para morar sozinha onde desejava e lá fazer o que bem queria, sem se apegar a ninguém.
 
Inácio casou jovem, os filhos vieram cedo e Emília começou a ser pouco visitada por eles.
 
Cada um com sua desculpa, o que ela entendia muito bem e não se queixava.
 
A mulher de Inácio tinha ciúmes da sogra e não gostava das visitas frequentes que ele fazia à mãe. Tratou de cortar.
 
Emília só era bem-vinda quando o casal queria passear, e precisava de seus serviços para cuidar das crianças.
 
Ela gostava, afinal, era uma oportunidade de ficar com os netos com quem pouco tinha contato.
 
Sua alegria era fazer seus doces, ouvir os elogios e ter sua vida ocupada.
 
O tempo foi passando e as visitas dos filhos foram ficando cada vez mais raras.
 
Emília já estava em seus 82 anos e continuava ativa, disposta e trabalhando.
 
Inácio conversou com Janete, dizendo que ficava preocupado com a mãe por não poder visitá-la mais vezes, Janete encontrava uma desculpa, e assim, um jogava a responsabilidade para o outro.
 
Emília seguia sua vida sem cobrar nada de nenhum dos dois.
 
Uma noite recebeu a visita de Inácio. Ela estava no meio de seus trabalhos e ele lhe disse que já era hora dela parar e se aposentar.
 
Emília retrucou brava:− Deus me livre! Não vou parar não. Pare você com essa conversa!
 
− Mas, minha mãe, a senhora já está velha, não tem mais idade e nem precisa se esforçar tanto.
 
− Velha, eu?! Velho é você que não tem coragem de viver a vida. Sei muito bem como são as coisas na sua casa. Vá cuidar dela e me deixe.
 
Inácio não se conformou. Aproveitou uma das saídas de Emília e lhe tirou todos os utensílios que ela usava para fazer seus doces.
 
Chegando em casa, o encontrou sentado na sala e uma TV enorme instalada lá.
 
Ela olhou meio desconfiada – que TV é essa, Inácio? Presente fora de hora?
 
— Veja, minha mãe, eu conversei com a Janete e acertamos tudo.
A senhora precisa de sossego, já trabalhou muito na vida, precisa descansar.
 
— Eu não estou cansada, meu filho. Muito pelo contrário. Vou continuar trabalhando. Esperem eu ficar inválida, aí vocês fazem o quiserem de mim
— vou continuar! – disse Emília.
 
— Veja só, minha mãe, para o seu bem, e sabendo de sua teimosia, eu e Janete levamos as coisas de sua doceria.
 
Emília não lhe deu resposta. Sentou-se à frente da TV e ficou olhando para ela amuada, sem falar nada.
 
Sentiu o coração partido, atraiçoado. Olhava a cozinha vazia e sentava em frente à TV desligada.
 
Ficava assim todos os dias, por horas, sentindo a alma entristecer.
 
Chegou o dia de seu aniversário, os filhos certamente viriam com aqueles presentes que ela detestava. Mais dois para esquecer na gaveta.
 
O dia passou e os filhos não apareceram como era costume.
 
Ela saiu e foi até a padaria, comprou um bolo, acendeu uma vela, comeu por ela e por todos e foi deitar-se.
 
Rezou, agradeceu e falou para si:  — Feliz Aniversário, menina!
Riu sozinha e dormiu feliz.
 
No dia seguinte levantou cedo e foi até o hospital do bairro vizinho oferecer seu trabalho voluntário.
 
Foi bem aceita, trabalho ali não faltava. Saiu contente, se sentindo renovada.
 
E  por um ano foi assim, se sentindo útil, jovem e animada.
 
Sendo muito querida pelos colegas, no seu aniversário do ano seguinte ganhou uma festa surpresa. Já nem lembrava como era bom festa de aniversário.
 
Voltou contente para casa e lá encontrou Inácio à sua espera.
 
— Aonde a senhora foi, minha mãe? Perguntou ele.
 
— Andar um pouco, comemorar meu aniversário com umas amigas. Posso, ou estou muito velha?
 
— Não deboche, minha mãe. O que é essa jaqueta de voluntário do hospital com seu nome?
 
Emília não teve saída. Contou a verdade e foi reprovada como tudo que fazia.
 
Nova reunião dos filhos e resolveram que Emília deveria vender a casa e comprar um apartamento pequeno, perto da casa de Inácio.
 
Vendida a casa, os planos mudaram.
 
Os filhos a levaram para uma casa de repouso de boa qualidade.
Pensaram que lá Emília seria vigiada e não poderia mais surpreendê-los.
 
Emília sabia que lutar com seus filhos seria uma batalha difícil. Mudou-se para o apartamento da casa de repouso sem contestar.
 
Em poucos dias já estava amiga de muitos e descobrindo nova forma de ativar sua disposição.
 
Começou a escrever tudo que via com amor e sentimento. Fez um caderno de memórias, com a visão do que observava.
 
Olhava sempre além e colocava beleza nos traços mais simples que apareciam à sua frente.
 
Tinha seu local favorito, onde sempre no final da tarde se sentava e escrevia seus pensamentos e seus olhares.
 
Um final de tarde estava no seu abrigo sonhando e escrevendo, quando Alberto, também morador da casa, se aproximou e perguntou:
 
— Caderno de receitas?
 
— Sim. Receitas de sonhos; de vida...
 
— Posso ver? – Claro! – Respondeu ela.
 
Alberto leu e ficou impressionado. Pediu o caderno emprestado e devolveu no dia seguinte.
 
− Você tem talento, Emília. Seus escritos são lindos! Eu gostaria, se não se importar, de lhe presentear com um livro de uma escritora que admiro muito, aceita?
 
Assim, nascia uma amizade além das letras. De encantamento mútuo
que apenas os muito próximos sabiam.
 
Emília e Alberto, apaixonados, encontravam-se às escondidas todos os dias, como ela preferia, para que ninguém lhe arrancasse mais uma vez sua escolha de vida.
 
Sendo então
...Secretamente Feliz!

domingo, 13 de fevereiro de 2022

Mundo Redondo!

 


Cada um é, para aquilo que nasce, diz o ditado. Mas, cada um precisa lutar para ser o que é. 

Assim, quando o mundo chegar à sua rotação total, você poderá descer sem susto, na certeza de uma escolha acertada e digna.

Porque o mundo... ah, o mundo... esse é redondo e gira para todos, assim como girou para os donos de nossa história.

Numa cidade pequena do interior, alguém toca a campainha de uma casa de apoio à crianças desamparadas. 

Vera, uma senhora bondosa e criadora da instituição que se mantinha com doações de pessoas e instituições, vai até o portão.

À primeira vista não tinha ninguém, mas olhando para baixo viu uma figurinha pequena e franzina sentada na porta com um papel na mão.

Vera se apressou em pegar a criança mal agasalhada e a abraçar protegendo-a do frio que fazia naquela noite.

Entrou correndo e pegou o papel que a criança, uma menina, segurava.

Leu em voz alta: − Meu nome é Eliane e tenho dois anos de idade. O meu aniversário é dia 1º de dezembro.

Vera habituada com situações assim, logo cuidou de Eliane, deixando-a confortável, já que parecia assustada.

No dia seguinte, fez as comunicações de praxe às autoridades da cidade e assumiu a responsabilidade de acolhê-la, fazendo todos os registros de sua chegada como sempre fazia.

Não levou muito tempo e a pequena recém chegada se adaptou à nova vida e à nova moradia.

Todas os meses, ficava na fila de apresentação às famílias interessadas na adoção.

Algumas das crianças encontravam novas famílias e saiam; outras perdiam as suas e chegavam. 

Esse era o cotidiano da Casa de Apoio Santa Maria, conhecida como a Casa da Dona Vera.

Os mais velhos ajudavam com os menores e vida que segue.

O tempo passava e Eliane não conseguia uma família para adotá-la.

Devido a idade era mais difícil despertar interesse.

Era notadamente inteligente e quieta. Parecia sempre estar pensando, olhando, observando e guardando.

Eliane já estava com sete anos de idade e continuava na casa.

Nesse ano, dona Vera recebeu a visita de uma senhora da capital com sua filha.

A mãe conversou muito com dona Vera, e contou que na verdade não tinha interesse em adoção, mas gostaria de cuidar de uma menina que fosse da idade da sua filha, para lhe fazer companhia.

Sendo a menina de sete anos, Vera logo pensou em Eliane e a chamou para conhecer Clara, a filha da senhora que acabara de conversar.

A boa conexão entre Eliane e Clara foi imediata. Em poucos minutos já estava Eliane mostrando a casa e os brinquedos comunitários, orgulhosa e feliz como nunca estivera.

Feitos os acordos, Eliane foi levada para a nova casa.

A recepção que Clara fez à Eliane, não foi menor do que a recebida por ela quando esteve na Casa de Apoio.

Eliane dormia com uma das empregadas da casa mas, Clara sempre dava um jeito de convencer os pais a deixarem Eliane dormir com ela em seu quarto.

Clara era uma menina delicada, gentil e doente. Motivo pelo qual não frequentava a escola normalmente, como as outras crianças.

Tinha professores particulares que vinham até sua casa, incluindo uma professora de piano e inglês.

Talvez devido à doença que a deixava fragilizada, odiava estudar, puxando assim Eliane para assistir às aulas com ela e cumprir as tarefas em seu lugar.

Faziam isso no instinto de brincadeira, era um segredo das duas e se divertiam assim.

Eliane e Clara se tornaram mais do que amigas, era um laço de irmandade e cumplicidade. Uma completava a outra e eram confidentes.

Passados seis anos, a doença de Clara se agravou e aos treze anos de idade deixou Eliane sozinha, triste e desolada.

Não menos desolados ficaram os pais de Clara e sua avó, uma vez que era filha única.

Agora restava saber o que fazer com Eliane.

Decidiram que a agora adolescente ficaria, e que lhe ensinassem os serviços da casa, assim trabalharia como ajudante nos afazeres domésticos da imensa casa, agora vazia sem a presença de Clara.

A decisão foi tomada contrariando a avó de Clara, que não aceitava Eliane saudável e sua Clara levada por uma enfermidade.

Dona Emília, como se chamava a avó de Clara, transferiu seu desgosto e raiva para Eliane.

Nada que a garota fizesse a agradava. Implicava e lhe tirou tudo que a Clara lhe dera. 

As roupas que lhe dava eram roupas usadas dos adultos, fazendo com que Eliane usasse a criatividade para adaptá-las ao seu tamanho.

Não queria que frequentasse a escola pública onde estudava, dizia que não confiava na “sonsice” dela.

— Vai deixar essa moleca sair? Qualquer hora aparece aqui com a barriga maior que a petulância. Essa garota não presta! – Falava.

—Deixe ela, mãe, logo fará dezoito anos e vai procurar a vida dela – dizia a filha.

E Eliane chegou aos seus dezoito anos. Foi avisada que deveria procurar um lugar, porque não podiam mais assumir a responsabilidade com ela.

Deram-lhe um tempo, que Eliane, orgulhosa como aprendera ser, não aceitou. 

O tempo passado ao lado de Clara não foi apenas divertimento, foi preparatório. Aproveitou a oportunidade que Clara, brincando lhe dera.

Era fluente em inglês e tinha um nivel cultural de dar inveja.

Conseguiu um trabalho e dividia o apartamento com outras três moças para economizar dinheiro.

Se dedicou a estudar e pelas boas notas conseguiu uma bolsa de estudos para a universidade.

Estudava durante o dia e à noite dava aulas de piano, pois teve que deixar o outro emprego.

Nos fins de semana  estudava desesperadamente para ter boas notas e manter a bolsa de estudos. 

Não era fácil, mas tinha um objetivo, o mesmo confidenciado à sua amiga e irmã Clara.

Dizia que seria médica para tratar da amiga e as duas se abraçavam cheias de esperanças.

Do passado na Casa de Apoio, Eliane só tinha um envelope pardo com sua história que só abriu no dia de sua formatura no curso de medicina.

Da casa da família de Clara, tinha a lição que a única coisa que ninguém pode lhe tirar é o que você aprende.

De Clara, tinha as melhores lembranças e a base fundamental para chegar onde estava chegando.

A ela, só lhe faltava o futuro que estava chegando com as melhores promessas.

Tempos depois, já médica cumprindo sua residência na especialidade que escolhera, foi chamada para atender um paciente.

À sua frente, dona Emília num estágio avançado de uma doença que que lhe tirava o direito de morrer dignamente.

Diante de uma escolha dessas que a vida nos impõe, Eliane tomou o caso para si, e em memória à Clara, cuidou pessoalmente de sua avó, com o mesmo carinho que cuidaria de Clara.

Rodeada da família, e com a dignidade que todos merecem, dona Emília morreu segurando a mão de Eliane, mas não foi antes lhe dizer:

“Doutora... doutora Eliane, você é uma menina de valor!”

“Assim, quando o mundo chegar à sua rotação total, Eliane poderá descer sem susto, na certeza de ter feito uma escolha acertada e digna.”

 

Mundo Redondo!

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    “ Conheci um amor virtual, amor tão lindo quanto o real, sempre mando recados e depoimentos, mesmo distante tocou meus sentimentos.” ...